Os Órfãos – Programa “Em Família”

Participação no Programa “Em Família” no Canal Saúde.

A edição fala sobre os órfãos, suas necessidades e traços comuns de personalidade em busca de referências familiares.

 

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Referências teóricas da Palestra proferida em 22/08/2003 no Encontro – Núcleo de Estudos e Treinamento em Gestalt-Terapia

A CONCEPÇÃO HUMANÍSTICO-EXISTENCIAL-FENOMENOLÓGICA DA GESTALT

Filosofia amor à sabedoria, não é um saber,
um corpo de doutrina, mas a procura amorosa da
verdade
Antonio Elmo de Oliveira Martins

A FENOMENOLOGIA
O ponto de partida de Husserl é a crítica às teorias científicas, particularmente as de inspiração positivista, apegadas à objetividade, a crenças de que a realidade se reduz àquilo que percebemos pelos sentidos e à noção de que o cientista e o objeto que pretende conhecer são completamente separados e independentes.
A fenomenologia surgiu como contestação ao método experimental. “Husserl nega a existência tanto do sujeito como do mundo, como puros e independentes um do outro. Afirma que o homem é um ser consciente e que a consciência é sempre intencional, ou seja, ela não existe independentemente do objeto”. Toda consciência é consciência de alguma coisa. Quer dizer que todos os atos psíquicos, tudo que se passa em nossa mente, visa a um objeto, logo, não ocorre no vazio.
“Fenomenologia gera-se de duas expressões gregas, phainomenon e logos. Phainomenon (fenômeno) significa aquilo que se mostra por si mesmo, o manifesto. Logos é tomado como discurso esclarecedor. Dessa maneira, fenomenologia significa discurso esclarecedor a respeito daquilo que se mostra por si mesmo. Para tanto se faz necessário “ir à coisa mesma”.
Para que se possa chegar a isso, Husserl propõe que o indivíduo suspenda todo juízo sobre os objetos que o cercam. Que nada afirme nem negue sobre as coisas, adotando uma espécie de abandono do mundo e recolhimento dentro de si mesmo. Tal atitude, denominada redução fenomenológica ou “epoquê”, leva-nos a um tipo particular de conhecimento, em oposição ao conhecimento objetivo, o categorial.
“A percepção categorial é imediata, espontânea, pré-reflexiva, própria da vida cotidiana, do viver imediato – nela não há separação entre sujeito e objeto e este é captado na sua totalidade por intuição – é a percepção própria das ciências do homem”. A fenomenologia, vê o homem como um todo. É um modo de pensar o ser da maneira como ele se apresenta. É por isso que Perls afirmava que a gestalt-terapia é baseada numa abordagem fenomenológica. Preocupa-se com aquilo que aparece, aquilo que é aparente na coisa, e que se revela por si mesmo na sua luz.
Isto remete a uma análise intencional da realidade em si e da realidade como chega à nossa mente, como é representada em nós. A maneira de existir das coisas depende do modo como são apreendidas pela consciência (“eu faço minhas coisas e você as suas”), é a consciência que lhes dá sentido (“eu sou eu, você é você”). Assim, fica clara uma relação entre consciência e objeto uma vez que a consciência é sempre consciência de alguma coisa e o objeto é sempre objeto para a consciência. Cabe à fenomenologia a elucidação da essência desta relação, pois, através dela, pode-se entender o mundo inteiro, pode-se chegar às coisas mesmas. “Nós não existe, mas é composto de eu e você (…) quando há encontro eu me transformo e você também se transforma”.
A gestalt-terapia busca chegar à essência do homem; neste sentido, o fenômeno deixa de ser uma coisa e passa a ser um modo de o homem reagir ao mundo.
Com isso, pode-se dizer que o homem é um fenômeno que se revela lentamente, quanto mais ele se desnuda mais se aproxima de uma determinada luz, mais está em contato com a sua essência, que ele mesmo cria.
A fenomenologia é uma tentativa de clarificação da experiência humana. Tenta elucidar a relação entre o objeto e a consciência, a maneira como o objeto é apreendido pelo homem na sua consciência. As coisas se constituem na consciência através da intencionalidade. A intencionalidade faz com que as idéias sejam vivências da consciência, ela cria relação entre o sujeito e o objeto, entre o homem e o mundo. O objeto existe intencionalmente na consciência, uma vez que a consciência só é considerada como tal quando voltada para um objeto, e este só pode ser definido em relação à consciência; ele é objeto para um sujeito.
A gestalt-terapia considera a intencionalidade como uma “visada de consciência”, como aquilo que dá sentido ao homem e o seu modo de existir no mundo.

O EXISTENCIALISMO
Segundo Sartre, o existencialismo é uma doutrina que torna a vida humana possível e que, por outro lado, declara que toda a verdade e toda a ação implicam um meio e uma subjetividade humana, isto é, que a existência precede a essência. Senão vejamos: quando tratamos dos objetos que nos cercam podemos constatar que cada um deles ao existir pressupõe uma atividade mental humana que lhe é anterior e que o determina.
Posição inversa assume o existencialismo ateu. Segundo ele, no início, o homem não é nada e posteriormente será aquilo que se fizer de si mesmo. Não existe natureza humana porque não há um Deus para concebê-la. O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo: esse é o primeiro princípio do existencialismo. Embutido neste princípio, está o conceito de subjetividade. Este termo deve ser entendido como a afirmação de que a dignidade do homem é maior que a do objeto, porque ele nada mais é do que aquilo que se projeta num futuro. O homem é um projeto que vive a si mesmo subjetivamente, ao invés dos objetos.
Ao admitirmos a existência de um Deus que é o criador dos homens, estaremos aceitando a hipótese de que o conceito de homem para Deus é o mesmo que o de objeto para o industrial. Ao produzirmos um objeto, nos inspiramos num conceito deste objeto e numa determinada técnica de produção. O objeto é produzido de certa maneira e com uma utilidade definida. Podemos falar, portanto, que nesta caso é essência – conjunto de técnicas e definições de utilidade – precede a existência.Assim o homem estaria apenas materializando um conceito que já existe na mente de Deus.
Sendo assim, o homem é responsável pelo que é. O primeiro esforço do existencialismo é colocar todo homem na posse do que ele é, e submetê-lo à responsabilidade total de sua existência. Assim, o homem não é responsável apenas pela sua individualidade, mas é responsável por todos os homens. Escolhendo-se, escolhe todos os homens. Quando criamos o homem que queremos ser, criamos uma imagem do homem tal como julgamos que deva ser. Escolher significa atribuir um valor; assim crio a imagem do homem escolhido por mim.
Talvez possamos agora esclarecer o significado da angústia, do desamparo e do desespero. Ora, a responsabilidade que o homem tem no ato de escolher é a de tornar-se legislador. Então, quem me garante que fui eu mesmo o escolhido para impor a minha concepção de homem e minha própria escolha à humanidade. Se considero que algo é bom ou mal, eu mesmo tenho que decidir, não há sinais no mundo que me indiquem um caminho. E este só tem valor pelo fato de ter sido escolhido. A angústia, portanto, decorre da responsabilidade. Não é a angústia do quietismo, mas a da responsabilidade. O homem está condenado a ser livre, e sendo livre, é responsável por tudo o que faz. Se Deus não existe, não há valores que o orientem a priori; só se pode definir o valor de um sentimento escolhendo-o. O desamparo e o desespero decorrem da percepção de que estou só para fazer, só eu mesmo me faço.
Portanto, o quietismo é a atitude daqueles que dizem: os outros podem fazer o que eu não posso. O existencialismo diz que a realidade não existe a não ser na ação. O homem não é mais do que o seu projeto, só existe na medida em que se realiza. Para Sartre, um covarde não é assim por um determinismo orgânico ou psicológico, mas porque se fez assim. O existencialismo não pode ser a filosofia do quietismo, pois define o homem pela ação. Não é uma descrição pessimista do homem; é otimista, porque o destino do homem está em suas próprias mãos. Não é uma tentativa de desencorajar o homem de agir, mas afirma que a única esperança está em suas mãos: só o ato permite ao homem viver.
Para o existencialismo, a verdadeira consciência é a consciência de existir. Sartre afirma que só existe autenticamente o que “se escolhe” livremente, aquele que se faz por si mesmo, aquele que é a sua própria obra. Por conseguinte, “jamais existirei se não escolher a essência que pretendo ser”.
“A gestalt-terapia considera mentalmente saudável aquela pessoa em que a conscientização pode se desenvolver sem bloqueios, sempre que a sua atenção organísmica é provocada. Tal pessoa pode experimentar suas próprias necessidades e possibilidades ambientais de um modo pleno e claro, de momento a momento, aceitando-as como dados e aceitando-as no sentido de compromissos criadores”. O fluir de estados de consciência (awareness continuum) fortalece verdadeiramente o perceber-se a si próprio.
A consciência existencial é o ser de nossa direção para o mundo. Por isso de acentua o fato de que as coisas “se dão a nós” como vivências de consciência.
O mundo vivido tanto para o existencialismo como para a gestalt-terapia deve ser colocado à luz do dia. A consciência começa a pertencer ao ambiente do “encontro”, do “ser-no-mundo”. “Sua liberdade em situação se torna presente às outras liberdades em suas obras e desta maneira cria a possibilidade de intersubjetividade e do encontro”. “A tomada de consciência é sempre a experiência subjetiva”.
“Assim, temos sempre que considerar o segmento do mundo em que vivemos como parte de nós mesmos. Aonde quer que vamos, levamos sempre uma espécie de mundo conosco”.
Portanto, para a gestalt-terapia, “a tomada de consciência em si – e de si mesmo – pode ter efeito de cura. Porque com uma tomada de consciência completa, você pode tornar presente a auto-regulação organísmica, pode deixar o organismo dirigir sem interferência, sem interrupções; podemos confiar na sabedoria do organismo”.
“A realidade é a tomada de consciência da experiência que se processa, no tocar, no mover, no fazer real. A abordagem gestalt-terapêutica é uma abordagem existencial: nós existimos como um organismo, como um animal, e nos relacionamos com o mundo exterior como qualquer outro organismo da natureza”.
A gestalt-terapia procura penetrar na própria vivência da pessoa, captar o seu modo de existir, o seu ser-no-mundo, as características do seu existir, particularmente a sua maneira de vivenciar o espaço e o tempo (hic et nunc – aqui e agora). Não nos tomem por egoístas apressados, pois trata-se de ser-no-mundo, as nossas vivências não estão contidas dentro de nós, mas se manifestam intimamente relacionadas ao ambiente, às pessoas. O gestaltista percebe que toda a ciência (objetiva, experimental) não é suficiente para atender ao apelo vivo do cliente. As fórmulas teóricas não bastam para acalmar as pessoas. É preciso participar do existir do cliente, pois antes da técnica está a existência. “As técnicas são truques sujos”.
Quando Maria chega ao meu consultório, é Maria que chega ao meu consultório. Não fala de uma Maria anterior, de uma Maria outra, mas de si. Em nenhum compêndio fala-se desta Maria única que chega ao meu consultório. Se eu puder partilhar do seu existir, e ao mesmo tempo por mim existir, poderá haver diálogo, e, então, encontro. O resto é teoria, aparência e blá-blá-blá.

O EXISTENCIALISMO ( A “filosofia da vida” de Nietzsche)
A filosofia nietzscheana é basicamente uma filosofia que elabora uma perspectiva para se lidar com a morte e o sofrimento que são inevitáveis, a morte não necessariamente no sentido biológico do termo, mas também em um sentido das finitudes existenciais.
Para Nietzsche a vida merece ser integralmente afirmada. Não interessa desqualificar a vida por esta ser cheia de sofrimento e mortalidade. Partindo dessa concepção ele elabora toda uma crítica a cultura judaico – cristã. Em uma perspectiva nietzscheana quanto mais se assumir a mortalidade na sua potencialidade mais se retorna a vida. A principal crítica a nossa cultura é que esta nega a morte e, consequentemente, nega a vida. Nesta concepção o essencial é a afirmação do vivido, da vida tal como ela é, tal como ela se apresenta.
A crítica da ciência é, em última instância, uma crítica à moral. Pois a moral nega essa aparência em função da verdade essencial. Na arte se afirma a aparência e se cria a nova vida, se cria o vivido. Sendo a moral definidora da verdade vai de encontro ao vivido que é único a cada momento, ou seja, a moral subestima o vivido, por ser estabelecida à priori.
Nietzsche nega a moral e privilegia uma perspectiva ética. Uma ética do valor da afirmação da vivência, do vivido, da vida tal como ela se apresenta. A vida é fundamentalmente vir-a-ser, tornar-se devir. A valorização de um ser estático é a valorização do nada, é uma perspectiva niilista, é vontade do nada.
Uma outra perspectiva é elaborada a partir da crítica da ciência tendo como ponto norteador a perspectiva da arte. O cientista parte da dicotomia aparência – essência, isto é, parte da aparência para se chegar ao verdadeiro. A crítica da ciência vai desde a problemática do conhecimento, passando pela vontade de saber até o que podemos chamar de “impulso epistemofílico”. A crítica é realizada pondo em evidência o modo de conduzir a existência no âmbito da ciência, levando em consideração que a verdade não existe como algo estabelecido, toda a verdade é produto da criação humana, ou seja, nós criamos a verdade. A ciência nega uma aparência e vai atrás da essência buscando a verdade. Com isso a ciência se impotencializa para criar esta verdade, consequentemente passando ser um modo de vida impotente. É a arte que afirma a aparência e cria a verdade
Nietzsche defende uma visão artística onde este cria o verdadeiro a partir de uma identificação com o vivido. O artista não nega a aparência, ele é a aparência. Valorizar essa aparência é possibilitar a criação do verdadeiro partindo da própria atualidade existencial, o vivido.
Afirmar o vivido implica em afirmação das diferenças, à medida que se muda se encontra o outro. Quando o indivíduo se abre para a diferença do outro ele passa por um processo de modificação intensa, por um processo de afirmação do caráter processual da vida: processo devir, multiplicidade e diferença.

A FILOSOFIA DA RELAÇÃO DE MARTIN BUBER
A Gestalterapia é uma linha fenomenológico-existencial e relacional. Essa abordagem passou a reconhecer, junto com o surgimento da psicologia humanista, que o cliente não é o único pólo do processo terapêutico. Com a influência da vertente fenomenológico-existencial começou a elaboração de uma problemática específica à questão do papel do terapeuta no processo psicoterápico. Começamos a entender que este terapeuta não é apenas um técnico tentando aplicar uma técnica específica para “curar” o cliente.
Psicoterapia não é um processo de relação entre um técnico e um objeto defeituoso. É um processo de relação entre duas pessoas dentro do contexto da instituição psicoterapia que se colocam numa postura fenomenólogica de privilégio da perspectiva de suas consciências e de seu vivido. A terapia deixa de ser uma relacionamento entre um sujeito e um objeto e passa a ser uma relação efetiva entre dois agentes autônomos.
Nesta linha de pensamento resta uma questão fundamental que é a relação. Existe a necessidade de elaboração de uma teoria da relação e em particular de uma filosofia da relação. A filosofia que vai perspectivar uma compreensão do processo da relação terapeuta-cliente é a filosofia dialógica de Martin Buber, conhecida também como filosofia do encontro. Buber elabora uma filosofia da relação especificamente, independente das psicoterapias fenomenológico-existenciais, porém essas linhas vão ser profundamente influenciadas por suas idéias.
Martin Buber é um pensador austríaco que viveu a maior parte do tempo na Alemanha, particularmente no período compreendido entre as duas grandes guerras. Ele tentou elaborar uma filosofia que desse conta da relação entre seres diferentes e antagônicos. Uma das aplicações de suas idéias foi na relação entre palestinos e judeus. O pensamento de Buber faz parte de uma corrente dentro do judaísmo que, de certa forma, foi vencida pelo Sionismo. Buber tenta elaborar uma perspectiva política que constituísse o Estado de Israel como um Estado de Judeus e Palestinos.
A relação é um processo de interação que se dá basicamente entre diferentes. Esta é uma questão central na filosofia de Buber, só existe relação efetivamente entre diferentes. Buber parte da perspectiva de que “no começo é relação”.
O ser humano é fundamentalmente relação, não existe possibilidade de compreensão do ser humano que não seja a partir da relação. Desde o momento da fecundação até todos os outros momentos da existência ele só existe em relação. Neste sentido, por definição o ser humano é um ser relacional.
A partir da abertura do ser humano para o mundo existe duas possibilidades, segundo Buber, de relacionamento. O referido pensador vai usar o termo “palavra princípio” para se referir a forma de como eu me relaciono com o mundo. Então, eu me abrir para uma possibilidade de relação com o mundo, significa dirigir uma certa palavra princípio. Numa relação eu posso dirigir para o meu parceiro a palavra principio EU-TU ou a palavra princípio EU-ISSO. As palavras-princípios não são vocábulos isolados mas pares de vocábulos.
Uma palavra princípio é o par EU-TU. A outra é o par EU-ISSO no qual, sem que seja alterada a palavra-princípio, pode-se substituir ISSO por ELE ou ELA (BUBER: 1986, pp. 03) No modo EU-ISSO de relação converto o parceiro de relação em objeto de minha experiência. Experiência no sentido de apreensão do parceiro como objeto empírico de relação, isto é, tenho um relacionamento de uso.
A relação EU-ISSO é também uma relação cognoscente, ou seja, é uma relação de busca de conhecimento sobre o outro. É também uma relação parcial, uma relação na qual eu não me envolvo enquanto totalidade de ser; só me envolvo parcialmente.
A relação EU-TU é fugaz, momentânea, enquanto dura jamais converto o parceiro de relação em objeto de minha utilidade. A principal característica da relação EU-TU é a afirmação e diferenciação do parceiro numa relação de totalização ontológica, isto é, me relaciono com o outro ao nível de minha vivência pré-reflexiva. Sendo uma relação ontológica me envolvo enquanto totalidade de ser possibilitando uma certa reciprocidade.
O TU é relação. Relação quer dizer um processo vivo, processo entre dois parceiros. Nesta relação não existe objeto, existe parceiro de relação, onde ambos são sujeitos. O momento do TU é o aquele onde – ainda – não houve a cristalização de um objeto. Fatalmente vai aparecer um objeto, fatalmente essa relação EU-TU vai se converter numa relação EU-ISSO. Entretanto, enquanto isso não acontece, a relação EU-TU é um momento vivo de relação.
Experienciar o mundo é apreender o mundo como objeto; como objeto sensível. Só aplicamos a palavra experiência em relação ao ISSO, na experiência está implícito a relação com um objeto, um forma de abertura egocêntrica onde o sujeito está limitado a si mesmo, ele experiencia o mundo em si próprio.
Assim, o mundo da experiência é o mundo do ISSO e o mundo da relação é o mundo do TU. A relação com o TU é “atemporal”, na peculiaridade dessa relação ela não tem nem tempo nem espaço. O que caracteriza essa relação é a sua “imediatez”, ou seja, é uma relação imediata onde entre os parceiro não existe nenhuma mediação. O sentido do presente é a presença, só existe presente na presença do TU, na relação com o diferente.
Que ninguém tente debilitar o sentido da relação: relação é reciprocidade.
(…) O homem não é coisa entre coisas ou formado por coisas quando, estando eu presente diante dele, que já é meu TU, endereço-lhe a palavra-princípio (…).
Eu não experiencio o homem a que digo TU. Eu entro em relação com ele no santuário da palavra-princípio. Somente quando saio daí posso experienciá-lo novamente. A experiência é distanciamento do TU (pp. 11-10).
No momento da relação o outro é profundamente afetado pela outridade do parceiro. Esse é um momento plástico de transformação, onde liberto minhas possibilidades de desenvolver o meu potencial criativo.
Para a Gestalterapia, especificamente, e todas as outras linhas fenomenológico-existenciais o que interessa é a relação da experiência imediata do cliente no momento da sessão terapêutica. O processo terapêutico visa a espontaneidade e o fluxo natural da vivência de consciência do cliente. Neste sentido, o terapeuta é um parceiro no processo de elaboração e re-elaboração do vivido. O fato é que só existe vivido na relação com o diferente.
Devemos concluir diante do exposto, que se faz necessário um resgate das bases filosóficas da Gestalterapia para uma melhor compreensão de seu método, sua técnica e formas de atuação. A importância dos fundamentos filosóficos para a compreensão da Gestalterapia merece não apenas algumas páginas, mas todo um trabalho de pesquisa para que possamos analisar profundamente os conceitos gestálticos considerados por Fritz Perls, nos quais caminham toda a ciência e arte da teoria.
http://www.terravista.pt/aguaalto/2884/bfgt.html

O HUMANISMO
O humanismo é uma concepção do mundo e da existência, cuja questão central é o homem. O mundo só tem sentido se caminhar com o homem, que só pode ser pensado a partir do homem. Para Maritan, o humanismo “tende a tornar o homem mais verdadeiramente humano, e manifestar sua original grandeza através de sua participação em tudo aquilo que possa”, para que o “homem desenvolva as virtualidades contidas em si mesmo, suas forças criadoras e a vida da razão, e trabalhe no sentido de fazer das forças do mundo físico instrumento de sua liberdade”.
É necessário, contudo, cautela com o que diz Maritain. Se, por um lado, ele enfatiza a ação do homem, ou seja, seu ser-no-mundo, por outro lado, ele fala de sua grandeza original. Neste ponto Maritan ajuda-nos a observar que não existe apenas um tipo de humanismo. Há, diz Sartre, dois tipos de humanismo. Um deles é uma teoria que toma o homem como um fim e um valor superior. Isso implicaria que poderíamos dar um valor ao homem segundo os atos mais altos de certos homens, o que seria um absurdo. Outro entendimento de humanismo é o que toma o homem como fim, porque ele está sempre por se fazer, que recorda o homem que não há outro legislador além dele próprio. Assim, quando Maritain fala de grandeza original está falando de algo além-do-homem, ou de um humanismo que pressupõe um ser transcendental.
O humanismo com o qual nos identificamos como gestalt-terapeuta, contrário ao de Maritain, é o modo humano de ser-no-mundo comparável ao resplendor de uma luz, em cuja claridade tudo quanto existe pode tornar-se presente e revelar sua natureza própria. Os objetos não podem ser revelados sem o resplendor do homem, assim como este não pode existir sem a presença de tudo que está a sua volta, isto é, precisa de algo onde sempre num universo humano, fazendo-o e fazendo-se.
Imaginem um belo jardim, com arbustos, folhas e flores dos mais variados matizes e cores. Imaginem todo este jardim imerso na mais profunda escuridão onde nada se vê. Percebam agora uma luz radiante a iluminá-lo e a surpreender-lhe matizes e cores. Esta luz é o homem, ou melhor, pode ser este homem, se este homem o quiser. Contudo, este homem só se realiza como homem na medida em que existe um jardim a iluminar.
Da mesma forma, o gestaltista realiza-se no trabalho terapêutico defrontando-se com outro ser; porém, para sua profunda alegria, não se trata apenas de um jardim, mas de outro ser, que, assim como ele, tem luz própria. Sua tarefa consiste em mostrar este fato. Awareness e contato são seus instrumentos.
Na gestalt-terapia o homem é o centro dos acontecimentos. É pensando no seu bem-estar que ela requer do cliente que especifique as mudanças que deseja em si mesmo, ajuda-o a incrementar a sua compreensão de como se derrota a si mesmo e auxilia-o a experimentar e mudar. Do ponto de vista gestaltista, o indivíduo é capaz de assumir as responsabilidades por si mesmo e viver plenamente como pessoa em busca de integração.
Outro ponto de convergência entre a gestalt-terapia e o humanismo é o que diz respeito à comunicação, isto é, existir automaticamente, é viver consciente de suas limitações. Esta existência possível, no entanto, só se realiza mediante a comunicação com o outro. “Eu só existo em companhia do outro; só, eu nada sou. A comunicação é, então, o fim da filosofia e é na comunicação que todos os seus demais fins se encontram, isto é, o despertar do ser, a iluminação através do amor e a conquista da paz”3.
Para a gestalt-terapia, pessoas e organismos podem-se comunicar entre si, o que é chamado de mitvelt – o mundo que eu e você possuímos em comum. Nós falamos uma certa linguagem, temos certas atitudes, certos comportamentos, e os dois mundos se superpõem em alguma parte. E, nesta área de superposição, a comunicação é possível.
Para comunicar, temos que estar certos de sermos emissores, o que significa que a mensagem que enviamos possa ser entendida; temos também que estar certos de sermos receptores, que queremos escutar a mensagem da outra pessoa. É muito raro as pessoas que conseguem falar e ouvir. A integração entre o falar e o ouvir é realmente uma coisa rara. “Sem comunicação não pode haver contato. Há apenas isolamento e aborrecimento”.

UMA REFLEXÃO ACERCA DA CONSISTÊNCIA TEÓRICA DAS PSICOTERAPIAS HUMANISTAS
Georges Daniel Janja Bloc Boris
geoboris@uol.com.br
Texto publicado na Revista de Psicologia, Fortaleza, 5 (1): pág. 69 a 75, Jan/Jun, 1987.

Resumo
O trabalho trata da falta de consistência teórica das psicoterapias humanistas. Expõe conceitos do filósofo Martin Buber: atitudes Eu-Tu e Eu-Isso, diálogo e encontro. Refere-se às repercussões destes conceitos sobre as psicoterapias humanistas, mais especificamente a exacerbação dos aspectos vivenciais e o conseqüente empobrecimento teórico destas abordagens. Propõe uma retomada do estudo da fenomenologia e do existencialismo à luz de Edmund Husserl, Maurice Merleau Ponty e Martin Buber.

1. AS ATITUDES BÁSICAS DO SER HUMANO
A obra de Buber é marcada essencialmente pela busca do sentido da existência humana, visando ao resgate da sua responsabilidade pela construção de um mundo mais condizente com este sentido humano. Buber baseia suas indagações no diálogo, considerado por ele como a categoria existencial por excelência, propondo a compreensão da realidade humana através do prisma do dialógico, ou seja, do vínculo entre a experiência vivida (ação) e a reflexão (pensamento). Suas reflexões partem, portanto, das experiências vividas, que adquirem assim um alcance político, pois o diálogo é a base da formação das comunidades humanas, deixando de ser, conseqüentemente, um mero conceito abstrato, para descrever uma experiência concreta (Zuben in: Forghieri, 1984).
Buber (1977) afirma existirem duas atitudes básicas, duas formas de existir ou de ser-no-mundo, que alternam-se ao longo da existência humana: as atitudes Eu-Tu e Eu-lsso. Não se tratam de dois tipos de homem, mas duas posturas presentes em todos nós, em nossa relação com o outro, com as coisas e com o mundo.
Na atitude Eu-Tu, o homem integra-se completamente com o mundo, numa totalidade caracterizada pelo envolvimento, pela integração dos opostos, desaparecendo as peculiaridades e contradições individuais. O Tu não necessariamente é uma pessoa, podendo referir-se a animais, elementos da natureza, obras de arte ou divindades.
Podemos caracterizar como aspectos essenciais referentes à relação Eu-Tu (Zuben in: Forghieri, 1984):
a) reciprocidade: trata-se de uma dupla ação mútua entre os parceiros da relação. Cada pessoa-sujeito pressupõe a existência da outra, pois a ausência de uma delas põe fim à inter-relação, à reciprocidade. É nas relações humanas que a reciprocidade atinge o máximo de intensidade.
b) presença: ou o momento da reciprocidade. É esta presença que garante a alteridade, a diferença entre o Eu e o Tu, o que propicia o surgimento de um Nós, uma totalidade de pessoas independentes, que se escolhem entre si.
c) imediatez: a relação Eu-Tu ocorre aqui-e-agora, é direta, imediata. Nada se interpõe entre os parceiros (idéias, preconceitos, representações). O Eu se relaciona com a presença recíproca do Tu e não com a sua imagem.
d) responsabilidade: o conceito de responsabilidade deve ser entendido não como um dever ético ou uma obrigação moral, mas como habilidade de resposta (Buber, 1982; Perls, 1977). “A verdadeira responsabilidade se encontra onde há possibilidade de resposta” (Zuben in: Forghieri, 1984, p. 81).
“Responder a quê?” – indaga Buber (1982). “Responder ao que nos acontece, que nos é dado ver, ouvir, sentir” (p. 49). Eu e Tu respondem à situação presente, ao que o outro lhe apresenta. Portanto, responsabilidade pressupõe disponibilidade para estar totalmente com o outro (noção de encontro), pois o homem é um ser-com, um ser de relações (Zuben in: Forghieri, 1984). Entretanto, a relação Eu-Tu é uma experiência fugaz, rara a difícil. O homem não suporta manter um envolvimento tão intenso constantemente. Ele se afasta, se recolhe e o Tu tende a tornar-se um Isso, permanecendo em estado latente, enquanto possibilidade. Compreende-se, assim, que o Isso não necessariamente refere-se a coisas ou objetos.
Segundo Forghieri ([org.], 1984), o que caracteriza a relação Eu-Isso é a separação, o distanciamento entre o Eu (Egótico) e o Tu (Isso, Ele, Ela). O Egótico afasta-se, lidando com o Isso enquanto objeto do conhecimento a da ação (Zuben in: Forghieri [org.], 1984). Ainda de acordo com Zuben, Buber destaca, entre as modalidades da relação Eu-Isso, a experiência. Trata-se de um relacionamento de certa forma unidirecional entre o Eu (Egótico) e um objeto manipulável (lsso), caracterizado pela coerência espaço-temporal, delimitada e coordenada. O Egótico encerra em si toda a iniciativa da ação, não se voltando para o outro. É a própria atitude científica.
Não se deve encarar a relação Eu-Isso como algo negativo, pois trata-se de uma das atitudes humanas frente ao mundo, que permite-nos apreender as conquistas técnico-científicas da humanidade. É mais duradoura e estável, propiciando ao homem sensação de segurança. Torna-se negativa quando submete o homem, levando-o à decadência de seu poder de decisão, de responsabilidade a de disponibilidade para o encontro. “E com toda a seriedade da verdade, ouça: o homem não pode viver sem o Isso, mas aquele que vive somente com o Isso não é homem” (Buber, 1979; p. 39).

3. ALGUMAS PROPOSTAS DE SOLUÇÃO
O pensamento de Edmund Husserl parece-me um primeiro passo na retomada deste caminho. Face à contraposição entre a especulação metafísica e o raciocínio positivista, Husserl apud Dartigues (1973) propôs uma filosofia nova, que unisse:os dados da experiência o pensamento em sua totalidade + racional = FENOMENOLOGIA (FENÔMENO) (LOGOS)
Um retorno à fenomenologia parece necessário. “É, como dissemos, um postulado da fenomenologia que o fenômeno seja lastrado do pensamento, que seja logos ao mesmo tempo que fenômeno” (Dartigues, 1973, p. 21).
Como se percebe, não basta ficar com o fenômeno como ele nos aparece. É necessário às psicoterapias humanistas um pensar sobre, a reflexão acerca da experiência vivida, para que se dê a compreensão dos fenômenos característicos da psicoterapia.
Um outro passo pode ser representado pela contribuição valiosa de Maurice Merleau-Ponty. De acordo com Rezende (in: Forghieri [org.], 1984), o referido autor propõe alguns critérios concernentes a uma psicologia de inspiração fenomenológica: primeiramente, a psicologia deve ser uma ciência humana, ou seja, partir do próprio homem para compreendê-lo e a seus caminhos. Esta psicologia deve ser estrutural, isto é, deve investigar as diversas experiências humanas, integrando-as em seus vários níveis, formas e mundos. Outro aspecto é seu caráter dialético, reconhecendo a pluridimensionalidade no interior da existência, por oposição ao psicologismo. Um outro critério referente à psicologia fenomenológica é que ela deve ser simbólica, já que o homem é polissêmico, encarnando os seus vários significados. Finalmente, esta psicologia não deve ser apenas existencial, uma teoria sobre o humano, mas um estudo do seu existir concreto. Retomando Buber, proponho uma melhor compreensão da dialética das atitudes Eu-Tu e Eu-Isso no campo das psicoterapias humanistas. Vale lembrar que o encontro existencial se dá através de dois movimentos (Zuben in: Forghieri [org.], 1984):
– distanciamento: onde o homem (psicoterapeuta) coloca-se frente a frente ao outro (cliente), reconhecendo sua alteridade (diferença), independente de si mesmo;
– relação: quando acontece a presentificação do outro enquanto pessoa.
Em outros termos, já é o momento das psicoterapias humanistas reconhecerem a necessidade de teorização acerca da relação psicoterápica, para que a própria relação e o próprio psicoterapeuta possam estar assentados em bases sólidas. Acredito que só assim as psicoterapias humanistas terão um verdadeiro reconhecimento enquanto abordagens científicas.
http://www.encontroacp.psc.br/uma_reflexao.htm

Os Limites da Psicofarmacologia e a Importância de sua Associação com a Psicoterapia

Quando se aborda psicopatologia, uma questão imediatamente se impõe: patologia é “o estudo de qualquer desvio anatômico e/ou fisiológico, em relação à normalidade, que constitua uma doença ou caracterize determinada doença”, mas para psicopatologia a definição que encontramos passa a ser “ramo da medicina que tem como objetivo fornecer a referência, a classificação e a explicação para as modificações do modo de vida, do comportamento e da personalidade de um indivíduo, que se desviam da norma e/ou ocasionam sofrimento e são tidas como expressão de doenças mentais”. Pelas acepções dos dois termos a diferença entre a normalidade do funcionamento físico e mental já é introduzida, já que na fisiologia corporal é possível a definição de padrões e medidas de funcionamento, mas quando tratamos do psiquismo os padrões passam a ser comportamentais, e, conseqüentemente, socialmente arbitradas.
Isso levou a Thomas Szasz, professor emérito de psiquiatria na State University of New York Health Science a escrever em Janeiro de 2000 no USA Today (Revista):

“O conceito psiquiátrico de doença repousa sobre uma radical alteração da definição médica. A mente não é um objeto material, daí que doente ela possa estar apenas num sentido metafórico.
A psicopatologia é diagnosticada pela descoberta de anormalidades comportamentais, e não pela descoberta de anormalidades físicas, corporais.
O diagnóstico de doenças corporais é o comando operativo que justifica que um médico admita em um hospital um paciente que assim o deseja. O diagnóstico de doença mental é o comando operativo que justifica a para um juiz encarcerar em um hospital de doenças mentais um criminoso sexual que cumpriu a sua sentença de prisão.”

A própria mente só pode ser entendida como um epifenômeno, resultante da interação de milhares pe processos cerebrais, orquestrados por interligações neuronais, algumas delas, filogeneticamente herdadas, permitindo que o estudo da neuroanatomia e neurofisiologia cerebral defina ligações entre determinadas regiões e determinados processos mentais.
Entretanto, a maior parte das ligações não está geneticamente determinada, mas vão se formando no decorrer de nossa vida, orientadas pelos estímulos externos que recebemos e pela própria vivência subjetiva que produzimos, ou seja são ontogeneticamente determinadas. Características próprias e individuais que fazem aquele indivíduo se reconhecer e ser reconhecido.
Aquilo que percebemos como um psiquismo normal é o resultado de um processo ininterrupto e cumulativo, de assimilação de novas percepções e acomodação do sistema nervoso a essas novas experiências desde a formação da placa neural no ectoderma do embrião até o momento presente do indivíduo. Pensado desta forma o funcionamento psíquico se torna a emergência funcional de comportamentos capazes de equilibrar o funcionamento das estruturas neurofisiológicas com as experiências vividas no presente pelo indivíduo.
Também temos de considerar que o funcionamento do cérebro não é uniforme, nem os neurotransmissores possuem atuação específica em um determinado sintoma. Essa a diversidade e especialização do cerebro fazem com que a alteração sistêmica global produzida pela medicação, apesar de produzir os benefícios pela alteração do equilíbrio neuroquímico em uma determinada área cerebral, irá ao mesmo tempo desequilibrar outras áreas do cérebro ou mesmo alterar interações do sistema nervoso com músculos ou vísceras, produzindo, em maior ou menor intensidade efeitos colaterais, que freqüentemente são tão ou mais incômodos para o paciente que a própria doença.
De forma oposta, várias das “doenças mentais” não possuem base orgânica, pelo menos até o momento determinada. São causadas por produções subjetivas do próprio paciente. Fobias, neuroses, estresses pós-traumáticos e outras podem se dar em pessoas neurofisiologicamente sãs, mas que desenvolvem suas patologias após a vivência de determinadas situações. Além disso, é necessário pensar que a ontogênese de um determinado indivíduo se dá através da utilização de um determinado conjunto de mecanismos neurofisiológico. Ele descobre como aprender, se relacionar, amar e ser ele mesmo através desse mecanismo. Qualquer mau funcionamento dessas estruturas foi compensado e utilizado durante a formação da personalidade. Pode inclusive integrar as capacidades mais preciosas para aquele indivíduo. Aí nos deparamos com um problema: a “cura” pode resultar em prejuízos maiores que a “doença”. Tomemos como exemplo o caso de John Nash, retratado no filme “Uma Mente Brilhante”, onde ele, psicótico paranoide, opta pela não utilização dos antipsicóticos que manteriam sob controle seus delírios persecutórios, pelo fato de o incapacitarem para a realização de seu trabalho. Note-se que este trabalho o levou ao Prêmio Nobel de Economia em 1994. Também no personagem de ficção Mr. Jones, interpretado por Richard Gere no filme homônimo, em que um maníaco depressivo de quarenta anos que alterna frases de feliz euforia e de triste depressão recusa tratar-se, pois se prefere dessa forma.
Então como e quando medicar o paciente? Em que basear a hipótese do sintoma apresentado resultar de um desequilíbrio neurofisiológico ou se são formações psicológicas. A meu ver a referência a ser buscada é a incapacidade do paciente de se equilibrar de forma aceitável para ele mesmo. Ou seja, sempre que as estratégias terapêuticas relacionais se mostram ineficazes, em função da desconexão com a realidade ou de um sofrimento que exceda a capacidade de simbolização daquele indivíduo, a medicação deve ser ministrada de forma a possibilitar a atuação terapêutica.
Ansiolíticos, antidepressivos, antipsicóticos, estabilizadores de humor, hipnóticos e tranqüilizantes devem ser adequadamente ministrados a pacientes que não apresentem melhora dos sintomas quando em processos psicoterápicos. Da mesma forma, pacientes que procuram uma abordagem medicamentosa devem ser encaminhados a processos terapêuticos concomitantes. Sob um outro enfoque, podemos pensar na produção do sintoma por duas vias:
A primeira é o sintoma como uma emersão psicológica produzida pelo psiquismo para prover sua equilibração. Nesse caso a medicação, e a supressão inicial do sintoma, resultará em um desequilíbrio ainda maior e a intensificação daquele sintoma, ou ainda o surgimento de nova sintomatologia equilibradora. Esse é o caso observado nas conversões somáticas e também a razão pela resistência de certos pacientes à medicação.
Por outro lado, o sintoma pode ser o resultado da incapacidade do psiquismo a se adaptar ao funcionamento neurofisiológico. Assim o uso de medicação permanente para reequilibração deste funcionamento pode ser necessária, acompanhada por um processo psicoterápico que monitore os sintomas nas diversas estâncias da vida do paciente, inclusive naquelas que ele não considera como indicadoras de patologia.
Finalmente, ressaltamos que qualquer procedimento terapêutico, seja médico ou psicológico, precisa manter o foco na preservação da capacidade de interrelação dele com o seu meio, físico, familiar e social. Talvez o único guia seguro para qualquer profissional que se proponha a “cuidar” de alguém.
As pesquisas mais recentes mostram que depressões, surtos psicóticos e ataques de pânico alteram a estrutura cerebral em termos químicos (neurotransmissão), microscópicos (neurônios, dendritos e axônios) e finalmente estruturais (volume de certas estruturas cerebrais). O tratamento precoce e o bloqueio de recaídas restaura as funções e estruturas ao estado normal. À medida que o psiquismo aprende a produzir sintomas, é cada vez mais fácil para ele produzi-los.
É preciso que deixemos os preconceitos de lado e ofereçamos tratamento adequado, psicoterápico e/ou psicofarmacológico, antes que o problema complique ou cronifique.
Referências:
http://www.psiqweb.med.br/farmaco/antipsicse.html
http://www.mentalhelp.com
http://www.santalucia.com.br/neurologia/depressao/default-p.htm
http://www.matematix.com.br/principal/showExemplar.asp?var_chavereg=32
http://www.mentalhelp.com/medicamento.htm
http://www.drauziovarella.com.br/artigos/cerebro_borboleta3.asp

Pierre Ferraz
contato@penseemterapia.com.br
Reprodução permitida, mediante citação da fonte

Psicanálise e Psicossomática

1. Introdução
Sempre que se escreve um texto se dialoga com um suposto leitor, nesse caso, o suposto leitor, ou pelo menos o leitor inicial é bem conhecido, ou seja o Professor Nahman Armony, Médico, Psiquiatra, Membro psicanalista da CPRJ e da Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle (SPID) , Membro da International Federation of Psychoanalytic Societies, Doutor em Comunicação pela ECO da UFRJ, Professor do curso de pós-graduação lato-senso “Psicologia clínica e Psicossomática” da Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro, o que torna a tarefa pelo menos mais pesada, uma vez que o meu percurso como psicólogo me levou a adotar como linha clínica e teórica a Gestalt-Terapia.
A Gestalt-Terapia tem sua gestação a partir da publicação, em 1942, do livro “Ego, Fome e Agressão, Uma Revisão da Teoria e do Método de Freud” onde Frederick (Fritz) Perls já expressa sua preocupação com as relações estabelecidas pelo indivíduo para obter do mundo a satisfação de suas necessidades. E tem o final de sua gestação em 1951, com o lançamento por Perls, Paul Goodman e Ralph Hefferline do livro Gestalt-terapia onde os três dão forma ao corpo teórico desenvolvido pelo que ficou conhecido como o Grupo dos Nove.
Perls graduou-se em medicina em 1920, aos 27 anos, interessando-se por neuropsiquiatria. Tem seu primeiro contato com a filosofia através de Sigmund Friedlaender
Em 1926, aos 33 anos, Fritz é analisado por Karen Horney e se transfere para Frankfurt, por sugestão da psicanalista, para continuar sua formação psicanalítica. Ali, trabalha com mutilados da Primeira Guerra Mundial no Instituto de Soldados Portadores de Lesões Cerebrais, com Kurt Goldstein, neurologista e psiquiatria alemão que irá formular a Teoria Organísmica. Esta teoria já trás, em seu conceito de auto-atualização, a noção de equilíbrio dinâmico topográfica como a busca de equalização pelo organismo, entre tensão e relaxamento. As forças que atuam não podem ser consideradas como internas ou externas, mas sim como forças contextualizadas em um campo interacional.
A formação psicanalítica de Perls prossegue até 1932, entre Frankfurt, Viena e Berlim. Em 1928, é analisado por Reich, de quem assimila os ensinamentos sobre a “couraça caracterológica”. Desde a ascensão de Hitler, em 1931, Fritz vinha trabalhando junto aos movimentos de resistência ao nazismo. Em abril de 1933, é obrigado a fugir para a Holanda, onde encontra o psicanalista Karl Landauer, continuando sua capacitação psicanalítica. Por indicação de Ernest Jones, muda-se para a África do Sul, onde funda o “Instituto Sul-Africano de Psicanálise”, em 1935.
Em 1936 profere uma palestra sobre “resistências orais” no “Congresso Internacional de Psicanálise”, na Tchecoslováquia, que é severamente criticada. O contato com Freud é breve e frio, e Reich mostra-se esquivo e mal-humorado. Perls a partir dessa época se afasta cada vez mais, da psicanálise. Apesar de já ter iniciado um movimento de flexibilização de seu estilo psicoterápico, tornando-o mais experiencial e aberto.
Assim, Fritz amplia o trabalho do “Congresso”, inclui elementos úteis de sua prática com Reich e do pensamento existencial, e, em 1940, conclui o manuscrito de Ego, hunger and aggression, que, originalmente, tinha como subtítulo A revision of Freud’s theory and method, o que demonstra que, apesar da posição revisionista, Perls ainda se mantinha inserto na perspectiva psicanalítica. O livro é publicado em 1942, em Durban (África do Sul); em 1947, na Inglaterra; e em 1969, nos EUA. A vinculação de Fritz à psicanálise, entretanto, durou pelo menos 15 anos, desde os anos 20.
Em 1951, com Paul Goodman, em co-autoria com Ralph Hefferline o livro “Gestalt Therapy – Excitement and Growth in Human Personality” no qual estão colocadas as bases da Gestalt Terapia.
A partir daí até a sua morte em 1970, Fritz Perls, sua esposa Lore e Paul Goodman, além de outros autores que paulatinamente foram se juntando a eles, consolidaram a Gestalt Terapia pautada em bases da Psicologia da Gestalt, Fenomenologia, Existencialismo, Teoria Organísmica de Goldstein, Teoria de Campo de Lewin, Holismo de Smuts, Psicodrama de Moreno, Reich, Buber e, por fim, a filosofia oriental.
Também eu realizei uma tragetória, ainda que com muito menor amplitude, semelhante. Tendo recebido a visão psicanalítica freudiana na graduação e buscado uma formação em Terapia Reichiana, rompi com a teoria psicanalítica especialmente pela sua base estruturalista. Concepções talvez erroneamente ministradas sobre a impossibilidade da modificação, através da clínica, de uma personalidades organizada como neurótica, psicótica ou perversa na infância, me fizeram questionar o modelo de homem que subjazia na teoria ensinada. O humanismo já existente em mim me conduziu a outros caminhos teóricos.
Infelizmente devo confessar que se dependesse da falta de exatidão com que os princípios da Gestalt Terapia foram passados na graduação, com certeza também não a teria adotado como base teórica. Felizmente uma boa formação clínica me salvou.
Qual não foi minha agradável surpresa ao entrar em contato com a produção dos Teóricos das Relações Objetais, especialmente com as teorizações de Winnicott, e descobrir que a Psicanálise, em sua produção posterior a Freud, havia produzido conteúdos muito próximas as da Gestalt.
Afinal, linhas teóricas são como as descrições da fábula dos cegos e do elefante, e de nada adianta discutirmos as diferenças entre uma palmeira, uma corda ou uma ventarola, todas são enfoques válidos de uma realidade maior. Serão nossas próprias experiências, valores e pensamentos que ditarão qual delas deixaremos que nos penetre. O que realmente importa é o que faremos desses conceitos a medida que estiverem assentados no nosso psiquismo.

2. Escolha do objeto – transtorno de pânico
Minha experiência clinica com pacientes psicossomáticos, assim entendidos pacientes que vieram a apresentar ganhos fisiológicas significativos ou remissão de quadros clínicos crônicos durante o processo terapêutico, normalmente se dá por duas vias: uma a indicação do pacientes por médicos não ligados ao enfoque psicossomático, e que sugerem a psicoterapia a seus pacientes por eles apresentarem durante a anamnese, ou em nas consultas subseqüentes, queixas psicológicas ou relacionais; e outra por pacientes que procuram psicoterapia e que possuem quadros clínicos crônicos.
Apesar de não constituírem, nos dois casa, parte da queixa inicial, tenho observado a remissão, após um tempo em terapia, de quadros como plaquetopenia grave, epilepsia, gastrites e outros quadros orgânicos.
Resolvi escolher um quadro fronteiriço entre o físico e o orgânico para abordar nesse trabalho, o Transtorno do Pânico. Vou me furtar a fazer uma descrição detalhada dos casos clínicos, mas me baseio em quatro casos. Dois deles se apresentaram à terapia com esta queixa autodiagnosticada, os outros dois trouxeram a questão como queixa secundária, priorizando, num caso questões profissionais e no outro questões familiares
Diferente de outros tipos de ansiedade, o Transtorno de Pânico caracteriza-se por crises súbitas constituídas de uma reação simpaticotônica de alerta desencadeada sem perigos ou outros fatores desencadeantes aparentes. Costuma evoluir para evitação das situações onde se desencadearam as crises, evoluindo mesmo até um quadro de agorafobia. Alguns autores, baseado na maior freqüência de ocorrência em algumas famílias, defende a existência de um fator genético, que estaria ligado ao desequilíbrio de serotonina e a noradrenalina afetando especialmente o funcionamento da amídala, estrutura cerebral desencadeadora da reação de alerta.
A reação de alerta em si, na inexistência de um disparador evidente, provocaria somente a sensação de ansiedade generalizada, no entanto, o que observo é que na presença das sensações ocasionadas pela resposta fisiológica tais como: vertigens, palpitações, distúrbios gastrintestinais, sudorese; o paciente apresenta uma forte resposta psíquica, normalmente acompanhada por pensamentos de morte. Essa resposta psíquica, acompanhada do aumento do ritmo respiratório, mantem e amplifica a reação de alerta e sua sintomatologia chegando a provocar a tetania muscular por alcalose sanguínea e perda de consciência.
Na sua maioria atinge jovens de 21 a 40 anos, extremamente produtivas a nível profissional, com carga excessiva de responsabilidades e afazeres, bastantes exigentes consigo mesmos, não convivem bem com erros ou imprevistos, têm tendência a se preocuparem excessivamente com problemas cotidianos, alto nível de criatividade, perfecionismo, excessiva necessidade de estar no controle e de aprovação, auto-expectativas extremamente altas, pensamento rígido, competente e confiável, repressão de alguns ou todos os sentimentos negativos, tendência a ignorar as necessidades físicas do corpo, entre outras.

3. Enfoque terapêutico
Em todos os casos obtive bons resultados abordando inicialmente o problema pela resignificação dos episódios de pânico. Inicialmente forneço informações ao paciente sobre a fisiologia da crise, enquadrando suas sensações em um esquema que ele possa entender, e fornecendo-lhe instruções claras e objetivas sobre os procedimentos a adotar durante um episódio. Esse enfoque devolve ao paciente o controle da Crise e, como será discutido mais adiante, permite que ele volte a sua onipotência mitigada.
Essa abordagem realizada logo nas primeiras sessões e funciona como fortalecedor do vínculo terapêutico. À medida que passa por Crises sem perder o controle reduz sua desconfiança no processo terapêutico e o paciente se permite abordar outros aspectos de sua vida que não somente o Transtorno de Pânico.
Somente a partir daí poderão emergir os conteúdos relacionados à sua ansiedade generalizada. Ainda partindo dos casos observados, em todos os casos pude observar a existência de padrões rígidos em um dos componentes do casal parental, e a flexibilização das regras pelo outro componente parental, não com o enfrentamento do parceiro rígido, mas na forma da cumplicidade na violação das regras por parte do paciente, especialmente no período da adolescência. Em dois casos havia a ocorrência de episódios de pânico no parceiro rígido do casal parental. Paradoxalmente, todos eles estabelecerem uma estratégia de fazer, de realizações e sucessos acadêmicos e profissionais, como forma falha de obtenção de aprovação daquele pai/mãe rígido, de certa forma desqualificando o afeto obtido da outra parte.
Em dois dos casos, os casais parentais eram divorcidos, e a rigidez sentida era agravada pela falta de intimidade com o pai distante.
Três dos quatro casos apresentavam relações afetivas conturbadas, marcadas por muitas cenas de violência verbal e ciúmes, e o quarto não conseguia estabelecer relações afetivas satisfatórias, apesar de apresentar muitos relacionamentos momentâneos, com a duração de horas, ou no máximo dias.
Os processos evoluíram apresentando uma redução da sensação de não conformidade e aumento de auto-estima, refletido na reformulação dos relacionamentos afetivos profissionais e familiares, sendo dois desses casos já tendo evoluído para alta e dois ainda em terapia

4. Releitura dos casos pela abordagem psicanalítica
Bom, vamos então a parte mais árdua deste trabalho. Buscaremos agora fazer uma releitura dos casos abordados por meio do referencial teórico de Winnicott, especialmente no tocante as questões de dependência absoluta e relativa enquadrando-os no referencial teórico que descreve o borderline brando proposto por Armony
Quando buscamos o referencial Winnicotiano para desenvolver o caso, chama a atenção, logo de início a estrutura familiar em que eles se desenvolvem. Todas as famílias apresentavam ambos os pais participando do mercado de trabalho e uma dissolução do modelo de cuidado considerado por aquele autor como necessário ao desenvolvimento neuroide da criança. A relação hierarquizada entre o casal parental inexiste, prevalecendo uma certa concorrência entre seus membros. O cuidado inicial em todos os casos foi pouco, uma vez que a mãe necessita retornar ao trabalho já no primeiro trimestre de vida do bebê. Em todos os casos o cuidado foi relegado a empregadas que cumprem simultaneamente a função de babá. Também em todos ele nota-se uma desorientação do casal parental frente as mudanças morais e culturais que se deram nas cinco últimas décadas, especialmente por terem vivido sua própria juventude nos anos 60 ou 70, ou seja no período da contra-cultura. Essa desorientação se reflete em normas alternadamente rígidas e frouxas, especialmente nos aspectos relativos a cobrança de resultados intelectuais, acadêmicos e profissionais, e no tocante à sexualidade.

4.1. Dificuldades na transição da dependencia absoluta para relativa
Podemos teorizar, uma vez que os fatos estão disponíveis, que esta atmosfera se refletiu numa menor disponibilidade da mãe para o estado de psicose “normal” que acontece na “preocupação materna primária”. Provavelmente divididas entre a disponibilidade para a relação com o filho e os cuidados objetivos com a sobrevivência econômica da família, não raro essa “desidentificação” provoca grandes sentimentos de culpa e ansiedades na mãe.
A tensão resultante da culpa/ansiedade da mãe e de sua necessidade de reassumir sua identidade social e profissional determina uma alternância entre fases de ausência da figura materna, substituída pela cuidadora, e, nos momentos em que está presente, um cuidado intrusivo e excessivo para o bebê. Nesse ambiente de alternância, em que é impossível ao bebê desenvolver a confiança no cuidado materno, podemos teoricamente supor, o bebê apresentaria dificuldades na transição da dependência absoluta para a dependência relativa.
A identidade primária do bebê estaria impregnada pela subjetividade ansiosa da mãe, e de fato a descrição da primeira infância dos clientes já é a de um bebê agitado Sob outro ponto de vista, nestes casos o bebê reagiu ativamente à intrusão, enraivecendo-se e revoltando-se. Esta premissa teórica confere com a dificuldade observada no estabelecimento, na vida adulta destes pacientes, da fusão necessária para a experiência do enamoramento. Este estado estaria dissociado, prevalecendo a simbiose observada nos relacionamentos afetivos violentos, marcados pela desconfiança e pela necessidade da expressão de individuação
A ausência de uma mãe suficientemente boa nesse período resulta, nas teorizações de Winnicott, numa uma dificuldade dessas pessoas em sentirem dentro de si a presença de uma base firme, de um eixo central. No pólo mais patológico da deficiência da identidade primária encontraríamos o autismo infantil, a confusão mental, a esquizofrenia hebefrênica, a esquizofrenia simples. Numa posição menos patológica ocorre uma identidade difusa, que apresentará problemas nas áreas das identificações e das identidades secundárias. Pode sentir-se não aceito, não reconhecido, não autorizado nas transições da fusão para a simbiose e para a individuação. Apresentam fala dispersa, ansiosa, e fragmentada, o desajeitamento corporal, exercem atividades múltiplas e dispersas e excessiva preocupação com a beleza. São pessoas que para se sentirem reais precisam muitas vezes de emoções fortíssimas, entre elas a emoção da violência/destruição. Todas estas conclusões teóricas se enquadram no quadro apresentado pelos estado em que os casos chegaram ao consultório, podemos enquadra-los, segundo Winnicott/Abram como borderlines e esquizóides.

4.2. Espaço potencial e espaço íntimo
Falemos então da formação do espaço potencial, teorizado por Winnicott. A medida que o bebê sai da dependência absoluta pelo repúdio do objeto como não-eu, o bebê sai de seu estado de onipotência absoluto, e estabelece, através da manipulação, ou seja, do erotismo muscular e o prazer de coordenação, uma nova relação com o objeto, um objeto que passa a ser, ao mesmo tempo, objetivamente percebido e subjetivamente concebido. Cria o espaço potencial que lhe dá suporte para sua onipotência, não mais absoluta, mas mitigada. O mundo interno é externalizado nesse terceiro espaço que não é nem o subjetivo nem o objetivo. É neste espaço que se darão as identificações secundárias, inclusive a identificação com seu próprio corpo, que é o primeiro significante a adquirir significado para ele.
A mãe suficientemente boa, nesse momento está liberada para recuperar sua individualidade, percebendo o filho como um outro, e se colocando em um estado de disponibilidade para a identificação, percebendo as necessidades de seu bebê e acompanhando seu ir e vir durante a consolidação da separação do mundo interno e externo, mediado pelo espaço potencial.
Esse espaço permitira a ocorrência dos fenômenos transicionais, e, me permito pensar, será o campo em que, durante toda a vida, se darão as catexias e descatexias de objetos que permitem o permanente devir do sujeito. Nele os “objetos transicionais” poderão ser apreendidos e abandonados sem a necessidade da repressão dos sentimentos, sem que tenham de ser esquecidos ou pranteados. Nosso ´permanente desenvolvimento se dá pela gradual perda de significado dos objetos, liberando o afeto para o reinvestimento em novos objetos. A maturidade se dá pela ampliação e pelo compartilhamento desse território intermediário entre a ‘realidade psíquica interna’ e ‘o mundo externo, que será base da própria vida cultural do indivíduo onde se dá a superposição de fantasia e realidade.
Pensando nos conceitos de Kohut sobre o self, como estrutura resultante das interações com o ambiente psicológico que necessita de confirmação nos relacionamentos e de um modelo de idealização para seu desenvolvimento normal e que na sua insuficiência dará causa a busca desesperada por perfeição e admiração, ou a um elevado ideal de ego.
Podemos retomar os casos clínicos pensando que os aspectos perturbadores da ação ansiosa e rígida do casal parental levará à fragmentação do self em formação, impedindo o investimento em determinados objetos. Em especial a preocupação exagerada com a saúde do bebê por parte da mãe ansiosa impedirá o processo de investimento e gradual perda de significado do corpo pelo bebê. Assim será difícil para ele criar um estado de “silêncio dos órgãos” característico da percepção da saúde. As sensações emergentes do corpo não terão uma boa conexão entre sua representação internalizada e externalizada, e sintomas como hipocondria, poderiam ser entendidos como uma inabilidade em lidar com este silêncio, ou, em outro pólo, a dificuldade de escuta das respostas corporais características da reação de alerta que descrevemos como característica do episódio de pânico.
Incluímos aí um outro conceito de Winnicott. Falando do desenvolvimento neurótico, irá afirmar que quando temos a capacidade de se sentir culpados e de reparar a perda dos objetos transicionais, conseguimos chegar à fase depressiva e os afetos a correlatos àqueles objetos poderão ser reprimidos. No entanto podemos pensar que isso somente se dará em relações que exijam ordem, dever, organização, controle, disciplina, ou seja que priorizem a realidade, o espaço externo sobre o espaço interno. Este era o foco na era vitoriana, e o resultado era um ideal de homem educado, formal, correto, disciplinado, cumpridor de suas obrigações, honesto, íntegro, retilíneo em sua trajetória de vida, confiável, honrado. Um cavalheiro, um gentleman, dedicado à tarefa de crescer lenta e seguramente dentro da atividade e/ou empresa escolhida. As regras eram estritas e aquele que as seguia era valorizado e recompensado. Numa realidade rígida e valorada o complexo de Édipo se resolve satisfatoriamente o homem adquire um superego sólido que dificilmente se deixará modificar pelo ambiente. Provavelmente necessitando, como diz a citação de Freud de um processo posterior para “…empreender uma revisão dessas antigas repressões e a subseqüente correção do processo original de repressão, correção que põe fim à dominância do fator quantitativo”
No entanto o ambiente familiar dos pacientes em questão apresenta uma inconstância, a medida que um dos pares parentais é rígido e exigente e o outro condescendente, embora ambos ansiosos.
Nessa ausência de uma maternagem suficientemente boa para criar uma boa identificação secundária podemos pensar na impossibilidade de criação do espaço potencial, em uma dissociação entre subjetivo e objetivo que poderá mesmo, em casos mais graves levar a psicose. No entanto podemos pensar na criação de um equivalente ao espaço potencial, através da substituição da mãe pessoa pela mãe-cultura.
Duas possibilidades podem ser pensadas para estes pacientes: ou puderam alcançar o espaço potencial, ou criaram um espaço equivalente ao espaço potencial, chamado de espaço de intimidade, onde vige a criatividade primária. Suponho que os casos de Transtorno de Pânico se enquadrem na segunda hipótese, o que viria de encontro a materialidade com que os episódios é sentida. As sensações corporais e alterações vegetativas não são percebidas como originadas subjetivamente, mas sim como um algo material que acontece, o que é sentido e imaginado ganha contornos de realidade. Na impossibilidade de simbolização das sensações corporais elas são externalizadas como um fato concreto. Estes fatos são colocados em oposição ao vivido, e, suponho seja essa a razão dos pensamentos de morte e que acompanham os episódios. Ou seja, podemos aplicar o comentário de Winnicott que “o cerne do distúrbio do paciente é psicótico, mas onde o paciente está de posse de uma organização psiconeurótica suficiente para apresentar uma psiconeurose, ou um distúrbio psicossomático, quando a ansiedade central psicótica ameaça irromper de forma crua.”

4.3. Borderliners ???
Penso que a proposição de Armony do conceito de borderline brando se enquadra nesses casos de síndrome de pânico, e possui uma grande semelhança com o perfil epidemiológico descrito anteriormente, conclusão que obviamente necessitaria de maior estudo e confirmação estatística.
Mas vejamos, para Armony, o borderline brando é alguém que uma insuficiência de identificações com a função-pai ou com a função-mãe. Apresenta as fronteiras de um eu ainda incompleto buscando encontrar figuras com as quais realizar as identificações que lhe faltou. Em outras palavras, as valências identificatórias não se contraem, mas permanecem buscando o preenchimento de suas necessidades desatendidas. Assim, conserva as características infantis e adolescentes: curiosidade, alegria, prazer, empatia, necessidade de identificação não apenas mental, mas principalmente psicossomática.
De certa forma, ele se afasta da realidade, porque não suportar a renúncia que ela exige, e realiza seus desejos eróticos e ambiciosos na vida de fantasia. No entanto sua necessidade de identificação não lhe permite permanecer psicoticamente na fantasia, e sua recriação mágica é conectada com o mundo circundante na forma de uma atividade criativa, o que lhe torna inovador, criativo, socialmente produtivo e dotado de um talento excepcional expresso através de força, energia, movimento, criatividade, singularidade, transformação e multiplicidade. Sua multiplicidade de interesses e ações e o seu intenso investimento nos objetos (apropriados em sua onipotência mitigada para o espaço potencial ou íntimo) socialmente reconhecidos, produz a sensibilidade, permeabilidade ao próprio inconsciente, ao do outro e à subjetividade circulante que Armony denomina “identificação dual-porosa” que lhe permite uma identificação contínua em devir com os acontecimentos, um regime de trocas fantasmáticas e afetivas contínuas entre os seres humanos entre si e com o mundo rodeante. Estabelece assim relacionamentos suficientemente bons com as pessoas e com o social, não através da culpa e reparação, mas através da recriação mágica desses objetos em uma fantasia não alheia à realidade.
Também quanto a seu mundo interno o borderline usufrui desta flexibilidade, terá um superego, lábil, influenciável que se deixa penetrar e influenciar e permite ao homem da pós-modernidade, sua habilidade em acompanhar as rápidas transformações tecnológicas e culturais.
Voltando as teorizações sobre os pacientes de pânico. De fato as descrições sobre ritmo, força, energia, sociabilidade, e multiplicidade de investimentos se encaixa perfeitamente. Entretanto duas característica ficam destoantes. Em todos os casos os pacientes apresentavam dificuldades com situações de avaliação de capacidade que não envolvesse competitividade agressiva, como por exemplo entrevistas de emprego ou mesmo em uma situação de “paquera”. No tocante aos relacionamentos afetivos, todos os pacientes preferiam relacionamentos marcados pela violência verbal e/ou fisica. As histórias de início do relacionamento sempre incluíam alguma forma, ainda que socialmente aceita ou não, de intrusão (tomar o parceiro de outra pessoa, seduzir agressivamente alguém, ou mesmo, numa intrusão voltada para si mesmo não cuidar dos próprios limites quando o intuito era o de conseguir “conquistar o parceiro). Suponho que tais problemas devam-se à tentativa residual e permanente de investimento no pai rígido, ou melhor dizendo, na sua forma de aplicação da regra, violenta, inacessível a capacidade empática do filho. Praticamente em todos os casos ocorre uma desistência do afeto dos pais, mas uma desistência “investida”, muito mais uma forma de comunicação (seja pela rebeldia, como pela frieza) que na verdade não permite o desligamento, mas sim o mantem.

4.4. Aspectos psicossomáticos do transtorno de pânico
Quando pensamos em psicologia clínica não há como não nos reportarmos às observações de sintomas físicos que chamaram a atenção de Freud e que deram abertura para suas descobertas. Com Charcot ele veio a ter contato com a remissão e a produção de sintomas físicos a partir das induções hipnóticas. Caberia então um questionamento, se esses sintomas são produzidos a partir de sugestões verbais, é provável que elas não estejam colocadas tão profundamente no inconsciente, mas sim em uma uma forma de comunicação.
Winnicott também prioriza o intersubjetivo, as relações objetais, como organizadoras do self, e encontramos atualmente o psiquiatra Christophe Dejours afirmando a primazia da intersubjetividade sobre a intrasubjetividade. O distúrbio somático então seria uma mensagem encaminhada a alguém.
Para Dejours, o adoecimento está determinado pelas falhas na cartografia do corpo erógeno. O corpo erógeno, tanto pulsional como uma unidade constituída historicamente no processo dialético que compõe a subjetividade a partir do brincar da criança, possuiria falhas. Justamente onde foi negada à criança a possibilidade da construção do objeto. Sensações originadas nessas falhas não poderiam ser dramatizadas e somente poderiam ser expressas pelo corpo. Dessa forma o evento se dá como expressão de uma tensão e tem o objetivo de comunicar algo que não possa ser dito a um outro, ainda que esse outro seja o próprio falso-self do paciente.
Voltando a nossos pacientes, todos eles se propunham a um ritmo frenético, a tentativa de acompanhar a aceleração crescente de nossa sociedade, se expondo a níveis crescentes de angústia, frustração e stress. Também apresentavam dificuldades de pensar, de elaborar e nas possibilidades de fazer ressignificações. Contrastando com o seu ritmo alucinante, o aspecto emocional apresenta-se paralisado. Debatem-se sem conseguir se libertar de situações amorosas e profissionais desagradáveis.
O excesso de sobrecarga psíquica que não foi simbolizada, seja pela falha da cartografia do corpo, seja pela insuficiência de representações termina irrompendo em momentos em que essa ação dispersante é interrompida – daí ser comum o ataque ocorrer em locais fechados ou em condições em que o paciente tem de parar de agir;
O trabalho com eles segue e seguiu um processo de costura de sua própria história, de estimulação para que o próprio paciente lhe dê sentido, incorporando essas experiências vividas ou revividas em terapia a seu próprio self. Desconfortáveis e muitas vezes reclamando cada vez que o processo sai de seu controle o paciente nos convida a uma dança em que ele entra e sai de seu mundo objetivo e subjetivo, compartilhando com o terapeuta o que antes era somente o espaço íntimo. A experiência de ser acompanhado sem intrusão organiza a possibilidade de compartilhamento do terceiro espaço.
A vida, a experiência. Não se dá nem na realidade nem na fantasia, mas naquele espaço potencial entre as duas, que não coincide, com a psique do indivíduo. tensões dialéticas de unidade e separação, de internalidade e externalidade
É bom descobrir que essa possibilidade organiza-o de forma a que possa “agüentar” toda a intensidade de vida que possui, sem que para isso se aprisionar na neurose.
Como eu disse, sou um Gestalt Terapeuta em terra estrangeira, mas vou me apropriar de uma frase de Winnicott: “Estou estudando a substância da ilusão, aquilo que é permitido ao bebê e que, na vida adulta, é inerente à arte e à religião” e a psicólogos, diria eu.
Espero ter conseguido “falar línguas estranhas”, brincar com meus pensamentos organizando-os sob novos significantes, às vezes próximos, mas às vezes escorregadios.

Olho minha recriação mágica,
gostei dela …
abro a janela e a deixo ganhar o mundo …
quem sabe ela pousa em outro espaço
e brota em todo seu potencial…

Pierre Ferraz
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O que é Psicossomática?

Pode-se pensar na psicossomática como uma síntese dialética no entendimento humano da doença. Desde os primórdios da humanidade a doença era entendida enquanto algo que acontece no homem. Incapaz de entender sua origem, curso e prognóstico o homem conduziu a doença ao domínio exclusivo do simbólico. A doença era a vontade dos deuses materializada, e o único meio de acesso a ela era o simbólico. Cantos, rezas e cultos eram as medidas eficazes para atuar nesse universo. Ainda hoje, esse entendimento subjaz na população, e encontramos, mesmo nas grandes metrópoles, curandeiros, rezadeiras, cultos de cura, novenas e outras formas de intervenção, nas religiões formais e informais, que atendem a expectativa da população de eficácia como tratamento de saúde.
A par desta visão simbólica da doença, a medicina se desenvolveu, inicialmente como forma de aumentar a eficácia das intervenções simbólicas. Substâncias, procedimentos e intervenções foram lentamente sendo depuradas, pela experimentação, criando um conjunto de conhecimentos que escapou do universo mágico. O tamanho e complexidade do conjunto de conhecimentos semiológicos tornaram necessária sua organização, tornando-se a medicina a primeira das profissões organizadas academicamente.
Confundidos, a semiologia dá lugar à etiologia, e criam-se entendimentos lógicos para a origem das doenças. Até hoje alguns conteúdos semânticos carregam explicações antigas, como em malaria, vocábulo do século XVI, para ‘mau’ e ‘ar’. Acompanhando o desenvolvimento tecnológico a medicina passa a poder mapear a sintomatologia não mais somente com os sentidos, microscópios, testes químicos, mapeamentos genéticos levaram a compreensão do funcionamento do corpo longe do que sonhavam os primeiros curandeiros. Num processo antitético a doença sai do domínio simbólico e passa a ser um defeito em uma máquina bioquímica que pode ser analisado, explicado, e consertado com intervenções físicas e químicas cada vez mais pontuais e eficazes. A descaso do aprofundamento do entendimento médico científico, alguns doentes e doenças, no entanto, insistem em existir sem uma causa. Mais ainda, elas questionam o próprio entendimento do funcionamento corporal. Paralisias e parestesias temporárias e reversíveis chamaram a atenção de Freud neurologista para a existência, ou melhor, para a persistência do simbólico como origem para essas doenças. Não mais demônios e deuses se manifestando, mas a expressão de algo igualmente mítico, o inconsciente, que transcendendo a esfera do simbólico provoca expressões concretas no corpo do doente.
À medida que a psicanálise e outras linhas da psicologia clínica aprofundam seu entendimento percebeu-se que a ação dessa instância simbólica extrapolava as atuações comportamentais ou sensoriais, ela é capaz de provocar lesões efetivas nos órgãos do corpo. Cada vez mais a medicina dá-se conta dos componentes emocionais que acompanham as cardiopatias, alergias, biopatias, bem como nas disfunções do sistema imunológico.
O homem é um ser integrado em uma enorme teia de relações, tanja-se qualquer das cordas que compõem essa teia e toda ela repercutirá, de forma maior ou menor, em todas as suas relações, inclusive na sua relação com o próprio corpo, ou seja, com a sua saúde ou doença. Numa longa e penosa espiral, construiu-se a Psicossomática, a doença saiu do domínio exclusivamente simbólico, transitou pelo enfoque mecanicista, e somente agora começa a ser entendida como algo que se dá no homem como um todo, no seu aspecto físico, mas também no psicológico, bem como no familiar, social, cultural, profissional, etc.
Essa é a psicossomática: o esforço para apreender o funcionamento do homem e de suas relações; de construir intervenções eficazes na manutenção e recuperação da saúde; de produzir um novo paradigma de conhecimentos que permita diagnosticar e intervir em quadros físicos e emocionais sejam eles crônicos, reincidentes, cumulativos ou resistentes a tratamento, de forma a promover a saúde e a qualidade de vida.

Pierre Ferraz
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Percepção e Terapia Familiar

Organismicamente falando estamos permanentemente mergulhados em uma infinidade de estímulos caóticos. Nossos sentidos estão permanentemente captando estímulos, sejam eles oriundos do ambiente externo ou do nosso “ambiente interno”. A medida que foram filogeneticamente surgindo estruturas que possibilitaram maiores interações com este campo, surgiu a necessidade da seleção dos estímulos importantes para determinada relação e daqueles irrelevantes para ela. Esse conceito foi desenvolvido pelos teóricos da Psicologia da Gestalt e denominado de Figura e Fundo. O processo de emersão de determinada figura é justamente a seleção de sua fronteira, onde concentramos a atenção para apreender as relações que estão se dando, ao mesmo tempo em que ignoramos as relações externas a ela – que se tornam o fundo, bem como a suas relações internas, uma vez que a figura foi, nos processos saudáveis, temporariamente reificada. Ela deixa de pertencer ao mundo de relação e compõe um objeto cognitivo estável. O que podemos confirmar a partir das experiências associadas à boa-forma. A medida que definimos uma determinada figura é vista como um círculo, por exemplo, deixamos de verificar suas relações internas, que assumimos como aquelas da “boa-forma”, independente de se confirmarem ou não. Nossa percepção é um fenômeno de fronteira.
Que fenômeno preside então a dominância de determinada figura. Suponho correto pretender que a estabilidade das relações de um determinado objeto determine a redução da intensidade de atenção voltada a elas, através de um processo de transformação em um objeto cognitivo cujas relações são pressupostas (num ponto de vista dialógico estabelecemos uma relação eu-isso com qualquer objeto estável – não sentimos necessidade de modificação das relações com aquele “objeto” já que ele é conhecido e estável). Já as relações constantemente alteráveis são apreendidas como processos e entendida como relações entre objetos estáveis.
Qualquer busca por mudança, e aí incluímos especialmente a procura por psicoterapia, é motivada por instabilidades tão grandes nos processos do cliente (seja ele individual, familiar ou institucional) que o obrigam a atualizar os objetos cognitivos até então estáveis. Essa mudança é desconfortável, o trás de volta a um mundo instável, demandando uma atenção demasiada para o estabelecimento da relação – não é outra a razão que leva a maioria dos clientes a solicitar ao terapeuta que “explique” o que está ocorrendo com ele – ou seja que estabeleça outro conjunto de objetos estáveis que lhe permita controlar suas relações com eles.
Família é uma de nossas reificações, um conjunto de relações com funções estabelecidas, impossíveis ao indivíduo isolado, como sobrevivência e reprodução, levou à formação de grupos onde essas relações mais amplas podem se dar. No mesmo processo perceptual, a repetição das relações definidas filogeneticamente (impotência das crianças, gestação nas mulheres) desenvolvidos historicamente levaram à paralisação dessas relações, criando os papeis de Pai, Mãe, Filho, Filha e Adolescente, e finalmente, quando e se a instabilidade dessas relações assim determinar, o de Adulto – aquele que se desliga do grupo original, levando com ele como herança, e utilizando-os como modelos, positivos ou negativos, seus introjetos. Ao receber um grupo familiar para terapia o terapeuta encontra-se frente a um dilema – para que possa estabelecer contato com cada um dos componentes do grupo ele deve compreender e trabalhar com esses introjetos, ao mesmo tempo em que deverá estar atento para não contaminar sua percepção dos processos internos, desconsiderados pelos próprios integrantes da família, que levaram à instabilidade das relações.
Finalmente, voltando à dialógica, não podemos nos perder num “furor curandis”, tentando suprimir prematuramente a insatisfação que motivou a procura pela terapia, pois ela é a própria motivação para que cada um dos componentes da família se olhem, para que desconstruam os objetos cognitivos que tomaram o lugar das pessoas. Numa analogia, aquela familia-cliente endureceu suas fronteiras como a casca de uma árvore, e o sofrimento que a trás a terapia é a motivação para o nascimento daquele novo rebento, para a expansão de suas fronteiras um pouco mais além.

Pierre Ferraz
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Psicologia – Crença ou Ciência ?

Antes da opção pela Gestalt-Terapia, outras abordagens clínicas atraíram minha atenção: análise transacional, hipnoterapia, psicanálise, terapia estratégica e terapia reichiana. A todas elas dediquei algum tempo de estudo, seja em cursos livres, estágios, grupos de estudo ou outras formas de aprofundamento para além do discutido na graduação acadêmica formal. O contato com essa diversidade de linhas, todas aceitas no meio acadêmico, e as discrepâncias entre elas me causaram surpresa, especialmente pelos reflexos que originavam nas práticas terapêuticas. As diferenças são tantas que algumas linhas apontam como danosos os procedimentos que outras adotam como técnica. Para citar um exemplo próximo, nossa atuação como Gestalt-Terapeutas é considerada impeditiva à realização de uma boa Psicanálise.
Psicologia é a minha segunda graduação profissional, sendo a primeira em uma área exata e tecnológica, Engenharia Eletrônica. Talvez por isso essa convivência acadêmica de técnicas “curativas” tão opostas tenha sido sempre fonte de incômodo. Assim como a insistência de alguns acadêmicos em ignorar as observações realizadas por outras linhas, ironicamente repetindo o procedimento de Freud, que com a sua intransigência em aceitar opiniões diferentes foi o grande incentivador da diversidade das linhas clínicas.
Essa posição contrasta com a visão que eu tinha e tenho de ciência. Ciência está associada à criação de modelos cognitivos, teorias, que permitem ao observador predeterminar a relação entre objetos. É uma redução da realidade, que possibilita ao observador redistribuir sua atenção perante a observação de um fenômeno. À medida que determinadas relações são previsíveis e conhecidas a atenção pode se voltar para relações mais sutis. As teorias são então modelos cognitivos da realidade, destinados à permanente modificação. São sabidamente falhos, mas aceitos porque dão conta da maioria dos fenômenos em uma determinada amostra. A nenhum pesquisador das áreas exatas ocorreria a idéia de ignorar um fato que não se enquadre em sua teoria, e justamente nesses pontos é que se dá o trabalho de pesquisa.
Psicologia não foge a este modelo: pensemos nos fundadores das diferentes linhas teóricas, eles elaboraram suas teorias através da observação das relações estabelecidas com e por seus clientes. Os sucessos e insucessos de suas intervenções estabeleceram um campo funcional onde determinadas relações passaram a ser esperadas, sua persistência estabeleceu um contorno que os fez enunciá-las como fundamentos teóricos, que ganham autonomia. Passam à categoria de conceitos que passamos a utilizar.
Nossa profissão, no entanto, apresenta uma característica especial. O seu objeto de estudo é dotado de vontade, e, se o cliente não responde ou abandona o tratamento, resta ao psicoterapêuta o engano de afirmar que o cliente não estava pronto para o tratamento. Gradualmente seu campo de observação se restringe àqueles que ratificam seus fundamentos teóricos. A conseqüência final é a generalização de conceitos particulares para todo o universo humano. Enganos desse tipo foram cometidas por todos os grandes teóricos da psicologia, que tentaram abranger a diversidade humana em um conjunto finito de normas e regras.
Além da generalização cometida pelos grandes desbravadores da psicologia, temos um problema ainda maior: a introjeção de seus conceitos por seus seguidores. Devido à ansiedade provocada pela rejeição do meio acadêmico-profissional, a maioria dos discípulos evita o questionamento das bases teóricas, e as adotam como crença. Estas crenças são tão arraigadas que vários profissionais preferem dissociar sua prática clínica dos fundamentos teóricos, declarando-se não ortodoxos, em vez de questionar estes fundamentos. Esse afrouxamento da relação prática/teoria reflete em um descompromisso profissional terapeuta-cliente, e, uma vez que a psicologia relaxa com esse compromisso, proliferam-se as práticas psicoterapêuticas realizadas por profissionais de outras áreas, ou mesmo por práticos formados em cursos de fim de semana.

Gestalt-Terapeutas que somos, temos de ser fiéis a escola filosófica fenomenológica que abraçamos, e entender que qualquer teoria é uma construção racional prévia, afastada do fato. É um reflexo tosco da realidade do encontro que irá ocorrer com cada um com quem tivermos contato. Metaforicamente quem gostaria de embarcar em uma condução em que o condutor, em vez de olhar a estrada, preferisse dirigir olhando apenas para um mapa à sua frente? Da mesma forma, que desconforto resulta em dirigir por um terreno completamente desconhecido, sem imaginar qual a direção pode levar a uma estância agradável ou a uma intrincada armadilha?
Todo o estudo, todo o aprofundamento em psicologia é importante, pois familiariza o terapêuta com as possibilidades do humano, assim como o conhecimento, pelo terapêuta, de diferentes intervenções técnicas instrumenta-o, aumentando sua possibilidade de colocar à disposição do cliente a intervenção necessária no momento correto.
A fenomenologia propõe uma nova interação com a teoria, difícil, à medida que nos propõe sua subordinação ao fenômeno, o abandono do falácia científica da previsibilidade resulante do conhecimento. As teorias, flexibilizadas, passam a ser facilitadoras do contato, instrumentos de redução da nossa ansiedade como cientista/terapeuta frente ao caótico acontecer que se lhe apresenta. Cada um dos grandes teóricos recolheu observações preciosas em suas experiências, podemos e devemos lê-los todos, e, criticamente, verificar quais foram os fatores curativos envolvidos naquelas intervenções, mas cuidando da ilusão que iremos encontar sua perfeita repetição em nossa prática.
Podemos pensar na questão da fundamentação teórica a partir do que diz Goodman sobre a consciência: a consciência, para ele, comparece à medida que a totalidade organísmica não tem condições de dar uma boa forma ao campo. O fenômeno não forma uma figura suficientemente clara para definir o ajustamento. Por exemplo, você pode ler esse artigo enquanto viaja, sem precisar deliberar sobre qual é o momento mais adequado para afastar os olhos do texto e verificar se já está chegando ao destino. As duas necessidades estão no campo e a forma de atendê-las também, elas irão se alternar naturalmente, sem que a consciência precise comparecer. Se, em algum instante o campo se altera, por exemplo: o parágrafo for mais difícil, ou se o itinerário for alterado, a consciência comparece, muitas vezes utilizando até o verbal para organizar a percepção (Vigotsky) – O que aconteceu ? para onde ele vai, ou o que ele quiz dizer ?
Infelizmente para todos teóricos, o ser humano é muito mais complexo que o itinerário de um ônibus, ou o que está escrito neste parágrafo, cada ser humano é um universo novo, diferente. Precisamos nos afastar do contato para compreende-lo, oscilamos entre estar associados, sentindo o fenômeno, ou, no dizer de Buber, de uma relação “eu-tu”, para uma posição dissociada, “eu-isso”, onde observado de longe o fenômeno pode ser compreendido pela consciência.
Comparando com o desenvolvimento efetuado por Ginger nos conceitos de Goodman sobre o Self como um processo, uma função organísmica, que subdivide esquematicamente em três outras: a função “id”, responsável pelas sensações e ações automáticas do organismo, a função “ego”, responsável pela decisão e racionalidade, e a função “personalidade” responsável pela memoria das situações e das emoções a elas associadas .
O terapeuta precisa ter claro que não é o seu entendimento do campo que origina a queixa do cliente, nem mesmo o entendimento dela por ele mesmo que é a “cura” para ele. A percepção da configuração do campo que emerge nos insights do cliente durante a terapia são função egóica, que irá prover a moblização de energia, que lhe dará base, força e possibilidade de se arriscar ao contato por novas soluções.
As novas soluções terão de ser arriscadas numa relação eu-tu, e é a relação cliente-terapeuta que se presta de campo experiencial, em que o cliente atualiza situações arcaicas e verifica a intensidade das emoções que surgem no intra-subjetivo e no inter-subjetivo. A presença emocional do terapêuta ratifica a experiência do cliente. Um terapeuta que omita suas emoções só conseguirá desestruturar a função “Ego” do cliente que se dá conta da omissão e ratifica a impossibilidade daquela experiência com “pessoas” reais.
Sua função personalidade se atualiza, as expectativas catastróficas diminuem e assim ele pode retomar o processo de crescimento interrompido pela cristalização da interrupção de contato. Ou seja ele pode voltar a ser sua própria medida, realizando bons contatos e boas retiradas. Desta forma o setting terapêutico passa a ser o local de encontro saudável onde o cliente vai poder arriscar suas mudanças e perceber o quanto elas são mobilizadoras, e a partir do momento em que ele arrisca, que ele pode se submeter à esta situação de ansiedade provocadas pelas suas próprias situações inacabadas que têm expectativas aterrorizantes para ele é que ele vai poder arriscar essas mesmas situações na vida, e é a vida que importa.
Se o terapeuta não estiver presente com as suas reações, com as suas observações sobre aquilo que é expresso pelo cliente como um todo, no seu corporal, no verbal e emocional, que retorno ele poderá ter para experimentar essas novas situações? O terapeuta portanto será tão melhor quanto mais pessoa ele for perante o cliente. Quanto mais ele puder devolver a ele aquilo que observa, que percebe nele, e verificar com o cliente o quanto isso esta sendo instrumento de sua expressão de vida, ou o quanto ele está utilizando essa estratégia como uma proteção contra uma ansiedade crescente. Tolerar esta ansiedade é um objetivo da terapia, assim como o é tolerar o desapontamento que surge a medida que ele percebe a disfuncionalidade de suas velhas estratégias.
Desprovido do ferramental usual para enfrentar a vida o cliente se sente perdido e,  a partir desse sentimento, do vazio fértil, é que ele pode criar suas novas estratégias. Essa não é uma ação fácil, o meio reage a essas alterações, as pessoas envolvidas nas relações alteradas pelo cliente tendem a reagir buscando a manutenção da homeostase. Novamente é a presença humana do terapeuta, reconhecendo o esforço e as conquistas do cliente que garante a persistência dele em suas mudanças. Sua nova forma de estar no mundo provoca mudanças nas suas relações que buscam uma nova homeostase.
O cliente oscila entre o risco de perder o conrole e a possibilidade de crescer. Cabe ao terapeuta reforçar o Ego para controlar suas emoções, não ser submetido por elas, ao mesmo tempo em que se permite vivenciá-las no que têm de possibilidade de mudança.
A saúde está então associada ao eterno pulsar entre o mobilizar de recursos internos pelo entendimento, pela compreensão e o vivenciar o novo. Não se pode cair no exagero de pensar que só o emocional é sábio para o cliente. Os mecanismos de interrupção de contato, quando são ferramentas organísmicas para dimensionar a intensidade do contato prazeroza para ele, estão funcionando saudavelmente.
A oscilação não pode ser vivenciada como uma luta, mas como movimentos complementares, que se integram e formam uma totalidade que é a vida.
O cliente é o maior conhecedor de si mesmo, se ignoramos as soluções criativas dele oriundas, sua sensação de saúde, e as substituimos pelas escolhas pré-definidas por uma linha teórica, estaremos trabahando pela constução de uma nova neurose que substitua a antiga.

Pierre Ferraz
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Fenomenologia

1. Introdução
Fundador da fenomenologia, filósofo alemão Edmund Husserl, apresentou o termo em seu livro “Idéias: Uma introdução geral à fenomenologia pura” (1913). Os primeiros seguidores de Husserl como o filósofo alemão Max Scheler, influenciado por seu livro anterior “Investigações Lógicas” (1900-1), afirmava que a tarefa da fenomenologia era o estudo das essências, como a essência das emoções. Ainda que Husserl nunca tenha desistido do seu interesse primordial nas essências, ele manteve que somente a essência de certas estruturas especiais da consciência eram objetos próprios da fenomenologia. Como formulou depois de 1910, fenomenologia é o estudo das estruturas de consciência que permitem a consciência referir-se a objetos fora de si mesma. O estudo requer reflexão no conteúdo da mente para a exclusão de tudo mais. Husserl chamou este tipo de reflexão de redução fenomenológica. Devido a mente poder ser dirigida para objetos não existentes tão bem quanto para os objetos reais, Husserl notou que a reflexão fenomenológica não pressupõe a existência de nada, mas antes disso coloca a existência “entre parênteses”, isto é coloca ao lado a questão da existência real do objeto observado.
O que Husserl descobriu quando ele contemplava o conteúdo de sua mente foram alguns atos como recordações, desejos e percepções e os conteúdos abstraídos desses atos, que Husserl chamou de sentidos. Esses sentidos, ele afirmou, possibilitam o direcionamento de um ato a um objeto sob certo aspecto; e algum direcionamento, chamado intencionalidade, que sustentou ser a essência da consciência. Fenomenologia transcendental, conforme Husserl, seria o estudo dos componentes básicos dos sentidos que fazem possível a intencionalidade. Mais tarde no “Meditações Cartesianas” (1931), apresentou fenomenologia genética, que definiu como o estudo de como os sentidos são construídos no curso da existência.

2. Antecedentes
Os últimos anos do século XIX, período dos primeiros trabalhos de Husserl,, se caracteriza pela queda na Alemanha dos sistemas filosóficos tradicionais. É a ciência que à partir de agora preencherá o espaço deixado pela filosofia especulativa. No domínio das ciências duas entre elas são notáveis, a matemática e a psicologia. A primeira através da sua teoria dos conjuntos se afasta cada vez mais dos dados intuitivos. Quanto à psicologia a busca é de constituir se uma ciência exata, como era o “modelo” positivista, eliminando os elementos subjetivos. À partir de 1880 a segurança positivista de redução começa a ser abalada.
Neste período acirrava-se na filosofia o antagonismo, presente desde Aristóteles até o século XIX, relativo ao dualismo lógico e psicológico. Na Inglaterra, Stuart Mill afirmava, conforme a tendência psicologicista da filosofia, que a lógica é um capítulo da psicologia, uma disciplina normativa do pensar, que os fatos humanos decorrem de fatores psicológicos, e tomava a própria consciência como objeto de estudo, decomponível pelo método analítico das ciências naturais. Já na Alemanha, Franz Brentano, seguindo a corrente logicista replicavam que a lógica era a ciência do entendimento, portanto independente da psicologia.
Brentano que havia proposto um novo método para o conhecimento do psiquismo. Sua grande contribuição foi a de distinguir os fenômenos psíquicos que comportam uma intencionalidade, dos fenômenos físicos, e logo em seguida afirmar que esses fenômenos podem ser percebidos e que o modo de percepção original que deles temos constitui-se o seu verdadeiro fundamento. “Ninguém pode verdadeiramente duvidar que o estado psíquico que em si percebe não existe e não existe tal qual o percebe”. Essa é uma posição estratégica forte porque se de uma lado descreve o fenômeno tal como ele é, aplacando a fúria positivista, permite por outro se ter acesso ao concreto e à vida. A escola de Brentano porém, fica na descrição dos fenômenos psíquicos.
Discípulo de Brentano, com quem entra em contato em 1884, Husserl, matemático por formação, se interessa pela possibilidade de fundamentar cientificamente a filosofia, transformando-a numa ciência universal, abarcando todas as coisas em seu campo de investigação, ultrapassa os conceitos de Brentano, buscando resposta às suas questões fundamentais através do método que denominará fenomenologia.

3. Método Fenomenológico
Seu ponto de partida é a critica às teorias científicas, em especial às de inspiração positivista, tão apegadas à objetividade que só percebem a ciência como meio de conhecimento possível. Para Husserl, entre a metafísica e o raciocínio das ciências positivistas deveria existir uma terceira via que colocaria no mesmo plano da realidade ou “das coisas mesmas”. Essa via havia sido tentada por Descartes que acabou se perdendo.
Como afirmou posteriormente Merleau-Ponty: “Voltar às coisas mesmas é voltar a esse mundo antes do conhecimento, do qual o conhecimento fala sempre e com relação ao qual toda determinação científica é abstrata, dependente como a geografia com relação à paisagem onde aprendemos pela primeira vez o que é uma floresta, uma campina ou um rio”.
Husserl busca a superação da dicotomia psicofísica, mantida tento pelo racionalismo, que enfatiza o papel atuante do sujeito que conhece, quanto pelo empirismo que privilegia a determinação do objeto conhecido, mantendo-se, em ambos os casos, o dualismo homem-mundo e corpo-espírito. Husserl abre um novo caminho, portanto, à discussão sobre qual o elemento primordial para a criação do mundo, a matéria ou a idéia, propondo, com a fenomenologia, que as idéias só existem porque o são sobre as coisas , ambas estão indissoluvelmente ligadas.
Assim, a primeira oposição que a fenomenologia faz ao positivismo é que não há fatos com a objetividade pretendida, pois não percebemos o mundo como um dado bruto, desprovido de significados; o mundo que percebo é o mundo para mim, logo, não há objeto em si, independente da consciência que o perceba, e esta consciência não existe enquanto consciência pura. Husserl introduz a noção de intencionalidade, com a mesma acepção empregada pelos filósofos escolásticos, em oposição à noção, da psicologia, de que a consciência é o recipiente dos conteúdos, imagens ou representações, dos objetos que afetam nossos sentidos. Para Husserl, toda consciência é consciência de algo e o objeto é um fenômeno, ou seja, etimologicamente, “algo que aparece” para a consciência.
A fenomenologia é somente possível por uma condição: o fenômeno está penetrado no pensamento de logos e que o logos se expõe e só se expõe no fenômeno. O fenômeno deve ser lastreado de pensamento, não podemos conceber o fenômeno como um filme de impressões ou algo que esconda às coisas em si”, ao contrário, ao falar em essência a idéia é ressaltar que o sentido do fenômeno é imanente.
O caminho buscado é uma via média para: como pensar segundo a sua natureza e em cada uma de suas nuances os dados da experiência em sua totalidade? A resposta seria o fenômeno e nada mais que o fenômeno. Mas se o fenômeno não é nada de construído, se é acessível a todos, o pensamento racional também deve ser. Com isso Husserl realiza o velho sonho da filosofia, o de tornar-se uma ciência rigorosa, o pensamento filosófico retorna às suas origens dando-se como ponto de partida não mais as opiniões dos filósofos mas a própria realidade
O princípio da intencionalidade é que a consciência, sendo sempre consciência de alguma coisa, só o é dirigida para a um objeto. O objeto só pode ser definido em sua relação com a consciência, objetivada para um sujeito. A essência, desta forma, não tem existência fora do ato de consciência que as vise. A fenomenologia em vez de ser contemplação de um universo estática de essências eternas, vai se tornar a análise do dinamismo que do espírito que dá aos objetos do mundo seu sentido.
Consciência e objeto não são duas entidades separadas na natureza que se trataria , em seguida de por em relação, mas consciência e objeto se definem respectivamente à partir dessa correlação que lhes é de alguma maneira co-original. O campo da análise fenomenológica se encontra delimitado na relação consciência/objeto, ela deve elucidar a essência dessa correlação. A essa análise Husserl dará o nome de nóese a atividade da consciência e de nóema o objeto constituído por essa atividade. Devemos entender que se trata do mesmo campo de análise no qual a consciência aparece como se projetando para fora de si em direção a seu objeto e o objeto como se referindo aos atos da consciência.
Aqui já não se trata de uma psicologia descritiva tal como era feita por Brentano, já que a consciência contém muito mais do que a si própria, nela nós percebemos a essência daquilo que ela não é , o sentido mesmo do mundo em direção ao qual ela não cessa de “explodir” como diria Sartre.

4. As essências
A essência responde à questão: o que é o que é ? Essa é uma questão que pode ser colocada a propósito de qualquer fenômeno. Porém essa colocação não é feita por sabermos ou acreditarmos saber da essência do fenômeno, já que não existe fenômeno do qual; possamos dizer que ele não é nada, pois o que não é nada, não é. Todo fenômeno tem uma essência, o que se traduz na capacidade de designá-lo, nomeá-lo.
Se a essência permite identificar um fenômeno é porque ela é sempre idêntica a si própria não importando as contingências de sua realização. Husserl vai se dedicar a elucidar a essência das formas puras do pensamento, as categorias lógicas e gramaticais que nos permitem pensar um objeto em geral.
Com isso é possível alcançar uma compreensão à priori do ser, uma compreensão independentemente da experiência efetiva sem por isso abandonar a intuição, já que a intuição das essências é a intuição de possibilidades puras.
É ao mesmo tempo possível ter um conhecimento à priori dos diferentes domínios aos quais se aplicam as ciências experimentais , portanto saber de ante mão o que é o objeto de que vão tratar. Podemos assim conceber que elas sejam precedidas e acompanhadas em seu trabalho por ciência de essências ou ciências eidéticas.
No método proposto por Husserl há duas etapas: a evidenciação e a descrição.

5. A Evidenciação
A tarefa de registrar sinceramente as coisas na sua pureza original, denominada de epoché ou redução eidética por Husserl se dá a medida que a evidência ocorre quando a consciência de dirige a um objeto e é preenchida por ele, ou seja, quando o objeto se define em sua essência à consciência.
Hussserl foi buscar o termo epoché, palavra grega que significa suspensão, cessação, na folisofia medieval, que denominava assim o estado de repouso mental através do qual não afirmamos nem negamos nada.
Para que isso se dê o objeto deve se isolar do conjunto das coisas, da mesma forma que há de se isolar das coisas que lhe são próprias, a fim de manifestar-se de forma pura. A reflexão filosófica elimina assim os juízos historicamente adquiridos e tradicionais. Neste aspecto Husserl se afasta da dúvida sistemática proposta por Descartes, já que epoché não é duvidar, da mesma forma, difere da posição dos sofistas, já que não se nega o mundo, e dos cépticos, já que também não se duvida da existência dele, ao contrário é não considerar como válido o conhecimento anterior, suspendendo todo o juízo sobre o espaço temporal existente, colocando entre parênteses tudo que compõe a posição natural do mundo, que continua a ser algo de vivido como tese, mas sem dela se fazer uso. A partir da suspensão da apreensão mais adequada e rigorosa proposta pela superação do perceber pelo saber científico, abre-se um novo horizonte, em que o mundo circundante não é mais simplesmente existente mas fenômeno de existência.
A redução fenomenológica é a colocação entre parênteses da realidade tal como a concebe o senso comum, ou seja, existindo em si, independente de todo ato de consciência. A reflexão deve variar indefinidamente o conteúdo de um objeto, para destacar a essência mesma desse objeto. A apreensão do objeto se dá pela intuição.

6. A Descrição
A parte complementar da atividade de evidenciação. è o processo de manifestação autêntica da realidade, para o que o filósofo deve abster-se da dedução para não interferir na análise das evidências. A fenomenologia exclui a dedução, exprimindo descritivamente, como expressão pura, em conceitos de essências e em enunciados regulares de essências apreendidas diretamente na intuição essencial e nas conexões fundadas puramente nessas essências.
Não se recusa inferências mediatas, mas só serão consideradas se levar-nos diante de coisas que hão de dar-se numa apreensão direta das essências. Analogias que se imponham podem sugerir conjecturas, mas que deverão ser confirmadas por uma visão real.

7. Heidegger 
Todos os fenomenologistas seguiram Husserl na tentativa do uso da descrição pura. Deste modo, todos eles concordaram com o slogan de Husserl “Voltar às coisas mesmas.” As diferenças entre eles, entretanto, como por exemplo, se a redução fenomenológica pode ser realizada, e que é manifesto, para o filósofo, da pura descrição da experiência. O filósofo alemão Martin Heidegger, colega de Husserl e um dos mais brilhantes críticos, afirmou que a fenomenologia pode tornar manifesto o que esta comumente escondido, na experiência diária. Ele, desse modo, buscou em “Ser e Tempo” (1927) descrever o que chamou de estrutura do dia-a-dia, ou ser-no-mundo, que descobriu ser um sistema interconectado de equipamentos, regras sociais e propósitos.
Porque, para Heidegger, cada um é aquilo que faz no mundo, a redução fenomenológica é impossível para a experiência privada; e porque a ação humana consiste na direta apreensão de objetos, não é necessário propor uma entidade mental especial chamada de sentido para esclarecer a intencionalidade. Para Heidegger, ser através de um mundo entre coisas no ato de realizar projetos é o tipo mais fundamental de intencionalidade que possibilita direção analisada por Husserl.

8. Fenomenologia Francesa:
O existencialista francês Jean Paul Sartre tentou adaptar a fenomenologia de Heidegger à filosofia da consciência, assim efetuando um retorno a Husserl. Ele concordou com Husserl que a consciência é sempre direcionado ao objeto, mas criticou sua afirmativa que tal direcionamento só é possível pelo entendimento de uma entidade mental especial chamada sentido. O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty rejeitou a visão de Sartre que a descrição fenomenológica revela a pureza, isolamento e livre consciência dos seres humanos. Ele forçou a norma do corpo ativo, envolvido em todo conhecimento humano, deste modo generalizando a visão de Heidegger para incluir a análise da percepção. Como Heidegger e Sartre, Merleau-Ponty é um fenomenologista existencial, no que nega a possibilidade de colocar a existência “entre parênteses”.
A fenomenologia vem tendo uma forte influência no pensamento do século XX. Versões fenomenológicas de teologia, sociologia, psicologia, psiquiatria e literatura crítica tem se desenvolvido, e a fenomenologia se mantém uma das mais importantes escolas da filosofia contemporânea.

9. O existencialismo
A fenomenologia teve grande influência no existencialismo, movimento filosófico ou tendência, que enfatiza a existência individual, liberdade e escolha , que influenciou diversos escritores nos séculos XIX e XX, é uma filosofia que ressalta a individualidade e o isolamento do indivíduo em um universo hostil ou indiferente.
Devido a diversidade de posições associadas com o existencialismo, o termo possui uma definição imprecisa. Certos temas comuns a praticamente todos os escritores existencialistas podem, entretanto, ser identificados. O termo em si sugere um tema principal: a ênfase na existência individual concreta e, consequentemente, na subjetividade, liberdade individual e escolha.
Muitos filósofos, desde Platão têm dito que o ideal ético de bem é o mesmo para todos; desta forma todos se assemelham na perfeição moral individual. O filósofo Dinamarquês do século XIX Søren Kierkegaard, que foi o primeiro autor a se chamar existencialista, reagia contra esta tradição insistindo que o bem maior para o indivíduo é encontrado na sua própria vocação individual única. Como escreveu em seu jornal, “Eu devo encontrar uma verdade que seja verdadeira para mim…a idéia pela qual possa viver ou morrer.” Outros autores existencialistas concordaram com a crença de Kierkegaard que cada um deve escolher seu próprio caminho sem ajuda de objetivos padrões universais. Contra a visão tradicional que as escolhas morais envolvem um julgamento objetivo de certo e errado, os existencialistas argumentaram que nenhuma base racional objetiva pode ser encontrada para decisões morais. O filósofo alemão, do século XIX Friedrich Nietzsche debateu posteriormente que o indivíduo deve decidir que situações são consideradas como morais.
Todos existencialistas seguiram Kierkegaad na ênfase a importância da ação passional do indivíduo na decisão de questões de moral e verdade. Eles insistiram que esta experiência pessoal e ação conforme convicções pessoais são essenciais na escalada à verdade. Assim, o entendimento da situação por alguém nela envolvido é superior ao obtido por um observador objetivo. Esta ênfase na perspectiva do agente individual também gerou nos existencialistas a suspeita da razão sistemática. Kierkegaard, Nietzsche, e outros autores existencialistas passara a deliberadamente dessistematizar a exposição de suas filosofias, preferindo expressá-las em aforismos, diálogos, parábolas e outras formas literárias. Apesar de sua posição anti-racionalista, muitos dos existencialistas não podem ser considerados como irracionalistas no sentido da negação da validade do pensamento racional. Eles mantêm que a clareza racional é desejável onde possível, mas as questões mais importantes na vida não são acessíveis a razão ou a ciência. Adicionalmente, têm argumentado que mesmo a ciência não é racional como é normalmente suposto. Nietzsche, por exemplo, afirma que o pressuposto científico de um universo ordenado é, na sua maior parte uma ficção útil
Talvez o tema mais promissor do existencialismo seja a escolha. O atributo principal da Humanidade, no ponto de vista da maioria dos existencialistas, é a liberdade de escolha. Existencialistas têm afirmado que a humanidade não possui uma natureza fixa, ou essência, como outros animais e plantas têm; cada ser humano faz escolhas que criam sua própria natureza. Na formulação do filósofo francês do século XX Jean Paul Sartre, a existência precede a essência. A escolha é, desta forma, central para a existência humana, e lhe é inescapável; já que a própria recusa à escolha é escolha. Liberdade de escolha acarreta compromisso e responsabilidade. Devido aos indivíduos serem livres para escolher seu próprio caminho, os existencialistas argumentaram, eles devem aceitar o risco e a responsabilidade de seguir seus compromissos aonde eles os levarem.
Kierkegaard afirmou que a espiritualidade é crucial para o reconhecimento das experiências não só de medo, mas do sentimento de apreensão, chamado terror. Ele interpretou que isso seria a maneira de Deus conclamar cada indivíduo ao compromisso com um modo de vida pessoal valido. A palavra ansiedade (em alemão Angst) tem um significado semelhante no trabalho do filósofo alemão do século XX Martin Heidegger; ansiedade leva ao confronto individual com o nada e com a impossibilidade do encontro com a justificativa última das escolhas efetuadas. Na filosofia de Sartre, a palavra náusea é usada para o reconhecimento individual da pura contingência do universo, e a palavra angústia para o reconhecimento da total liberdade de escolha que confronta o indivíduo a cada momento.

10. Historia do Existencialismo 
Existencialismo como um movimento filosófico e literário distinto pertence aos séculos XIX e XX, mas elementos do existencialismo podem ser encontrados no pensamento (e vida) de Sócrates, na Bíblia, e no trabalho de muitos autores e filósofos pré-modernos.
O primeiro a antecipar o conceito máximo do existencialismo moderno foi, no século XVII, o filósofo francês Blaise Pascal. Pascal rejeitou o racionalismo radical do seu contemporâneo René Descartes, afirmando, no seu Pensées (1670), que uma filosofia sistemática que pretenda explicar Deus e a humanidade é uma forma de orgulho. Como os existencialistas posteriores, ele viu a vida humana em termos de paradoxos: O self humano, que combina mente e corpo é, em si mesmo, um paradoxo e uma contradição.
O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard lançou a regra maior para o desenvolvimento do pensamento existencialista. Kierkegaard criticou o conhecido método da filosofia racional advogada pelo alemão G. W. F. Hegel. Enfatizou o absurdo inerente na vida humana e questionou como uma filosofia sistemática pode ser aplicada á ambigüidade humana. No trabalho propositadamente assistemático de Kierkegaard, ele explicou que cada indivíduo deve empreender um exame intenso de sua própria existência.
Kierkegaard, normalmente atribuído como o fundador do existencialismo moderno, reagiu contra o idealismo sistemático absoluto do filósofo alemão do século XIX G. W. F. Hegel, que afirmava haver conseguido um entendimento racional total da humanidade e da história. Kierkegaard, ao contrário, insistiu na ambigüidade e absurdo da situação humana. A resposta individual a esta situação obriga a uma viver uma vida totalmente comprometida, e este compromisso só pode ser entendido pelo indivíduo que o assumiu. O indivíduo deve consequentemente estar preparado para desistir das normas sociais em benefício duma autoridade maior que é um modo de vida pessoal válido. Kierkegaard defendeu um “salto de fé” para um modo de vida cristão, que, apesar de incompreensível e cheio de riscos, seria o único compromisso que acreditava poder salvar o indivíduo do desespero.
Nietzsche, que não teve conhecimento do trabalho de Kierkegaard, influenciou o pensamento existencialista posterior através de sua crítica à metafísica e pressupostos morais tradicionais e pela adoção do pessimismo trágico e da declaração da vida individual que oporia a moral conformista da maioria. Em oposição a Kierkegaard, cujo ataque a moralidade convencional levava a defender um cristianismo individualista radical, Nietzsche proclamava a “morte de Deus” e prosseguiu rejeitando toda a moral judaico-cristã em favor de um ideal heróico pagão.
Heidegger, assim como Pascal e Kierkegaard, reagiram contra a tentativa de colocar a filosofia em uma base racionalista conclusiva – neste caso a fenomenologia do filósofo alemão Edmund Husserl. Heidegger argumentava que a humanidade se encontrava em um mundo incompreensível e indiferente. A humanidade não pode esperar entender porque está aqui; ao contrário, cada indivíduo deve escolher uma meta e segui-la com convicção apaixonada, consciente da certeza da morte e da extrema ausência de sentido de sua vida. Heidegger contribuiu para o pensamento existencialista com a ênfase no ser e na ontologia, bem como na linguagem.
O intelectual francês Jean Paul Sartre disseminou a filosofia existencialista com seus textos, romances e peças. O trabalho de Sartre focou o dilema da escolha encarada pelos indivíduos livres e o desafio em criar sentido para uma ação responsável em um mundo indiferente. No ponto de vista de Sartre “o homem está condenado a ser livre.”
Sartre deu popularidade ao termo existencialismo, popularidade ao usá-lo para sua própria filosofia, tornando-se figura central de um movimento particular na França, que ganhou influência internacional após a Segunda Guerra Mundial. A filosofia de Sartre é explicitamente ateísta e pessimista; declarava que os seres humanos exigem uma base racional para suas vidas mas são incapazes de conseguí-la, desta forma a vida humana é uma “paixão fútil.” Sartre apesar disso insistiu que seu existencialismo era uma forma de humanismo, e enfatizava fortemente a liberdade humana, escolha e responsabilidade. Eventualmente tentou reconciliar estes conceitos existencialistas com uma análise marxista da sociedade e história.

11. Bibliografia 
ARANHA, M. L. de A. & MARTINS, M. H. P. – Filosofando – Introdução à Filosofia – São Paulo: Moderna , 1986
DREYFUS, H. L. – Verbete “Existentialism,” in Microsoft (R) Encarta – Microsoft Corporation, 1994.
GILES, T. R. – História do existencialismo e da fenomenologia – São Paulo: EPU, 1989
LYOTARD, J. F. – A Fenomenologia – Difusão Européia do Livro.
NETO, H. N. – Filosofia Básica – São Paulo: Atual, 1986
PENHA, J. da – O que é Existencialismo – São Paulo: Brasiliense, 1982

Pierre Ferraz
contato@penseemterapia.com.br
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Será que preciso de terapia?

“Terapia!!! Eu não, isso é coisa de maluco!!!”

Vamos esclarecer: Terapia é um processo de facilitação da mudança. Sempre que estamos em uma situação em que não conseguimos fazer o que queremos, ou que não conseguimos parar de fazer o que não queremos, estamos frente a uma condição em que o decidido pelas nossas necessidades emocionais e racionais está em desacordo. Nesse momento o processo terapêutico é de extrema ajuda. Mudando a percepção de nossas capacidades, recolocando-nos no lugar de autores do próprio destino, a psicoterapia propicia a melhora da qualidade de vida.

“Ok, Terapia sim, mas grupo …. nem pensar!!!”
Grupos são uma excelente forma de otimizar o processo terapêutico. Identificamos mais facilmente no outro os processos de sofrimento, que em nós mesmos pois o emocional não esta interferindo. Numa sessão de grupo as dificuldades e recursos de cada participante induzem a mudança em todos. Questões que levariam tempo para emergir em terapia individual são trazidas à tona e trabalhadas de forma mais suave e sutil, gerando benefícios para cada um dos participante do grupo.

“Ta bom… Terapia de Grupo.
Mas o que é isso de Gestalt?”

Gestalt (lê-se “guestalt”) é uma palavra alemã, sem tradução literal, mas que pode ser usada como forma, figura, configuração, organização, conjunto, dependendo do contexto.
Inicialmente foi o nome dado a uma linha de psicologia experimental, que estudava a percepção. A Psicologia da Gestalt descobriu várias leis de percepção, dentre elas a que explica que vemos, ouvimos e percebemos as coisas a partir de figuras, configurações, formas globais, ou seja, através de Gestalts.
Depois disso, outros psicólogos estenderam tais leis também à clínica, criando a Gestalt-Terapia. Percebemos o mundo a partir de como o concebemos. As relações que estabelecemos deixam de ser vistas como são, e as vivemos a partir de nossos pressupostos. Agimos e reagimos usando estratégias, muitas delas desconectadas da realidade, e por isso ineficazes.

“Certo, Gestalt-Terapia de Grupo.
Onde eu acho?”

Chegamos à razão desse folder.
Estamos formando novos grupos terapêuticos na Tijuca, inicialmente com três enfoques:

Adolescentes (de 15 a 20 anos): poucos momentos da vida são tão conturbados como a adolescência, enormes quantidades de energia emocional emergem do corpo e nos vemos como alguém que monta um cavalo bravio. Também neste momento nos são apresentadas a maioria das questões centrais da vida. Afetividade, sexualidade, hierarquia (poder), liberdade, vida social e profissional surgem como questões urgentes que insistem em não calar. Terapia, nesse momento, é o melhor local para discutir as relações com pais, amigos, afetos, em suma, os sofrimentos íntimos que sozinho não conseguimos resolver .
Adultos: É na vida adulta que os conflitos entre as situações da vida e as cristalizações de nossos conceitos e estratégias entram em conflito. Valores, auto-imagem, adaptação a novas situações, relacionamentos afetivos, sofrem as conseqüências desses embates. E se eles não sofrem, somos nós que sofremos. Vemos confirmada nossa idéia de impossibilidade de decidir os próprios caminhos, sentimo-nos encarcerados pelas próprias escolhas. O sofrimento se espalha em cada expressão nossa. Pensamentos e sentimentos ficam contaminados, bem como as relações com o outro. Quanto mais resistimos em encarar as questões, mais elas se tornam presente, absorvem tanta energia emocional que tornam toda ação ineficaz. Reavaliar ações e decisões é imprescindível, e a maior parte das vezes precisa de um olhar treinado e isento de um terapeuta para acompanhar o processo.
Psicossomática: A relação corpo-mente é muito mais intensa que supomos. Sistema imunológico e mecanismos de auto-regulação respondem aos estados emocionais produzindo doenças, ou desorganizando nosso funcionamento orgânico. Quadros crônicos, ou de alta recorrência, merecem atenção psicológica para verificar se não se tornaram companheiros indesejados de nossas estratégias de vida. Sete doenças, segundo Franz Alexander (pioneiro da psicossomática) merecem especial atenção: asma brônquica, úlcera gástrica, artrite reumatóide, retocolite ulcerativa, neurodermatose, tireotoxicose e hipertensão essencial.

Pierre Ferraz
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